- Drama
- Postado em
Escola Grasso 403 – Aos Seus Olhos
Em uma sala da escola, Adryan e Gustavo discutem.
— Adryan, cara, eu não quero brigar.
— Por que não? Você é um perdedor. Todo mundo sabe disso, estão todos falando de você pelas costas. — Adryan começa a empurrar Gustavo. — Vai me bater? Vai me bater?
Gustavo respira fundo.
— Eu não vou te bater. A gente resolve isso conversando.
Adryan dá um tapinha no braço de Gustavo. A sala está cheia de alunos; todos aplaudem. Raquel Rodrigues a orientadora estudantil se levanta.
— Legal, Gustavo, você se livrou de uma situação complicada. — Raquel olha para a turma. — A raiva é só uma reação à tristeza, ao medo, à insegurança. Reconheça o problema real e você será livre. Obrigada a todos.
O sinal toca. Os alunos se levantam. Gustavo respira fundo, processando as palavras da orientadora.
Adryan se aproxima.
— Então, você conversou com a Raquel sobre… você sabe?
Gustavo suspira.
— Eu queria poder contar para todo mundo, conhecer novas pessoas, fazer amigos.
Adryan coloca a mochila nas costas e olha para Gustavo.
— Amigos gays?
Nesse momento, Carol entra na sala, sorrindo.
— Aí está você. Preciso entrevistar o solteiro mais cobiçado da Grasso para o anuário em vídeo.
Adryan se aproxima.
— Eu já vou.
— Não é você. — Ela olha para Gustavo.
Gustavo olha para Adryan, confuso, e depois se vira para Carol.
— Eu?
— Sim, você ganhou de lavada. As garotas querem saber o que te motiva.
Gustavo se vira e fica sério.
— Ótimo.
Na sala do Juliu’s Diário, Carol entrevista Gustavo, enquanto filma.
— Gustavo Assunção, você gosta de loiras ou morenas?
Ele levanta a cabeça, meio distraído.
— Hum… é… tanto faz.
Carol continua.
— E o que uma garota precisa fazer para chamar sua atenção?
Ele pensa por um momento.
— Ser legal.
Carol suspira e para a gravação.
— Você sabe que estou sendo avaliada nisso para a aula de Comunicação, né?
Gustavo fica mais sério e desvia o olhar.
— Desculpa… estou tentando.
Carol liga a câmera novamente, se posiciona ao lado de Gustavo e olha para a lente.
— Gustavo Assunção: o homem misterioso.
Os dois acenam para a câmera.
Sara e Joana conversam na sala de aula.
— A Emílio Ribas zoou a gente primeiro — disse Sara.
Joana suspira.
— Eu sei. Mas você exagerou. Agora nenhum time quer jogar contra a gente até a gente se desculpar.
— A gente não é racista. A Emílio Ribas tem fama de ser uma escola de delinquentes. Foi só uma brincadeira, não tem nada a ver com racismo.
Joana respira fundo.
— Tá, mas a gente não pode deixar isso estragar a temporada. Podemos explicar que erramos no trote e pedir desculpas, e aí…
— Você tem que dizer que foi uma piada — interrompeu Sara.
Joana perde a paciência.
— Então por que você não diz?
Sara fica em silêncio, olhando para ela.
— O que foi? — Joana perguntou.
Sara estreita os olhos.
— Eu não posso ir com você me desculpar. Tenho terapia familiar.
Joana suaviza a expressão.
— Eu entendo, isso é importante. Posso adiar a reunião.
Sara abaixa o olhar.
— Não sei se é uma boa ideia eu ir.
Joana fica séria.
— Foi você que fez o trote, né?
Sara se inclina, chegando mais perto de Joana.
— Foi. Foi tudo ideia minha e… eu peguei o seu celular e coloquei na bolsa da Mikaelly. Eu achava que por ela ser negra, todos acreditariam que ela roubou. Me desculpa por isso.
Joana desvia o olhar por um instante.
— Tá… deixa isso pra lá.
Sara se ajeita na cadeira.
— Você sabe que eu não sou racista, né?
Joana sorri de leve.
— Claro que sei. Não se preocupa, Sarinha. Deixa comigo.
Sara sorri e se vira para a frente. Joana para de sorrir e olha para ela, com um misto de dúvida e preocupação.
Lara está no armário, arrumando alguns livros. Adryan se aproxima.
— Lara, beleza?
— E aí, Adryan.
Adryan passa a mão na nuca, meio sem jeito.
— Você não vai ligar pra Ellie?
Lara suspira, evitando o olhar.
— Eu não consigo, Adryan… não dá.
Adryan franze a testa.
— Como assim “não dá”, Lara? Ela te mandou várias mensagens desde que foi pra São Paulo, e você não respondeu nenhuma. Nem comigo você fala mais.
Lara fecha o armário devagar e se vira para ele.
— Eu… eu terminei com ela porque precisava de um tempo pra mim.
Adryan revira os olhos, impaciente.
— Eu entendo que você precisa de um tempo, Lara. Mas, pelo amor de Deus, a Ellie precisa de uma amiga agora. E você deixou claro pra ela que queria continuar sendo amiga dela.
Lara encosta no armário e fica em silêncio por alguns segundos.
— Eu sei, Adryan… eu vou ligar pra ela.
Adryan cruza os braços.
— Quando, Lara? Se você não quiser mais falar com ela, quiser se afastar, é um direito seu. Mas fala com ela pelo menos. Não ignora as mensagens.
Lara pensa por um momento, o olhar distante.
— Eu ainda amo ela, Adryan. Eu sei que ela também me ama… só tenho medo de isso acabar atrapalhando o tratamento dela de alguma forma.
Adryan se aproxima um pouco mais, falando com mais calma.
— Como eu disse… a Ellie precisa de uma amiga. Eu sei que ainda existem sentimentos, mas… só conversa com ela. Isso não vai fazer mal pra ninguém.
Adryan sai. Lara fica ali por um instante, pensativa. Ela pega o celular a foto de capa ainda é um desenho dela com a Ellie, feito pela própria Ellie.
Lara abre o WhatsApp e começa a digitar uma mensagem, mas para. Suspira, apaga tudo e guarda o celular no bolso.
Ela sai andando pelo corredor da escola.
Mais tarde, Gustavo está no yoga. Tom e Carol também estão lá.
— Ótimo — disse a instrutora. — E continuem relaxando no seu próprio ritmo. Namastê.
Gustavo olha para Tom, que sorri. Tom se abaixa, pega suas coisas e passa por Gustavo.
— Até a próxima, Gu.
Gustavo sorri.
— Até, Tom.
Os dois trocam olhares. Tom sai da sala. Carol percebe e se aproxima de Gustavo, que enrola seu tapete. Ela se agacha ao lado dele.
— Foi tão relaxante, obrigada por me chamar. — Ela enrola o próprio tapete e olha para Gustavo. — Então… você disse que ia me contar de quem está a fim.
— É… então… acho que de ninguém, no momento.
Ela se aproxima um pouco mais.
— Sério?
Gustavo sorri, meio tímido, se levanta e se senta em um banco.
— Carol… — Ele respira fundo. — Eu tenho algo para te contar.
Carol se senta ao lado dele. Ele continua:
— Isso pode te assustar.
Ela sorri.
— Bom, sorte que meus chakras estão alinhados.
Gustavo desvia o olhar.
— Então… eu gosto… eu gosto de garotos.
Carol olha surpresa para ele.
— O quê? Você tem certeza?
Ele olha firme para ela.
— Absoluta.
Ela abre um sorriso, animada.
— Isso é muito incrível. Sou a primeira pessoa para quem você contou?
— Só o Adryan sabe.
— Você está a fim do Tom — ela o interrompeu.
Gustavo sorri, sem graça.
— Não… quer dizer, ele… ele é bonito… — Gustavo para de falar. — Esquece. Só não conta para ninguém, beleza?
— Sim, beleza. Eu também tenho coisas que não quero que as pessoas saibam, então seu segredo está guardado, prometo.
Gustavo coloca o braço ao redor dos ombros de Carol e a abraça.
— Obrigado por ser legal.
Mais tarde, na frente da escola, Tom está conversando com uma colega. Gustavo passa por ele e acena, tentando parecer casual. Tom sorri, e os dois trocam um olhar que dura um segundo a mais do que deveria. Gustavo continua andando, mas vira o rosto para olhar de novo.
Carol surge ao lado dele, percebendo tudo.
— Gu… por que você não chama o Tom pra sair?
Gustavo solta um riso baixo, meio nervoso.
— Ah, sei lá… ele deve estar com alguém.
— Eu acho que não. — Ela inclina a cabeça, confiante. — E, mesmo se estiver, não custa tentar.
Gustavo morde o lábio, pensativo, e dá um sorrisinho sem graça.
— E o que eu ia dizer pra ele?
Carol para na frente dele, encarando-o com um sorriso de quem já decidiu por ele.
— Você vai mesmo chamar ele pra sair?
Gustavo abaixa o olhar. Antes que responda, Carol olha por cima do ombro dele e abre um sorriso maior.
— Bom… é melhor decidir agora.
Gustavo se vira.
Tom está vindo na direção dele.
— Oi, Gu.
Gustavo demora meio segundo pra reagir, depois sorri.
— Oi, Tom.
Os dois ficam em silêncio por um instante. O barulho da escola continua ao redor, mas ali parece que tudo desacelera. Gustavo olha para o chão, depois para Tom, depois desvia de novo.
Ele respira fundo.
— Quer dar uma volta?
A pergunta sai rápida, quase atropelada.
Tom levanta levemente as sobrancelhas, surpreso, mas logo sorri.
— Claro. — Ele faz uma pequena pausa. — Um café? Se você estiver livre.
Gustavo pisca, como se estivesse processando, e então assente rápido demais.
— Tô, sim. Beleza.
Tom dá um sorriso mais aberto.
— Legal. Te vejo no Luca’s em uma hora.
Ele se afasta. Gustavo acompanha com o olhar, ainda meio em choque.
Carol aparece do lado dele, praticamente vibrando.
— Você tem um encontro!
Gustavo solta um riso curto, passando a mão no cabelo.
— Não, não é… — ele para, pensando melhor, e fica sério — É um encontro?
Carol chega mais perto, divertida.
— Relaxa. — Ela dá um leve empurrão no braço dele. — Qual é o pior que pode acontecer?
Gustavo não responde. Só olha na direção em que Tom foi.
Joana recebe Mikaelly, capitã do time da Emílio Ribas, em casa.
— Pode se sentar.
Mikaelly se senta sem pressa. Joana a observa por um instante, um pouco rígida.
— Quer alguma coisa?
— Não, obrigada.
Joana se senta em uma poltrona, de frente para ela, ajeitando as mãos no colo.
— Obrigada por ter vindo. Espero que a gente consiga resolver tudo. Todo mundo quer voltar a jogar.
Mikaelly sustenta o olhar, sem suavizar.
— Claro que mandaram você.
Joana franze a testa, desconcertada.
— Eu sou uma das capitãs.
— E onde está a capitã branca?
O silêncio pesa por alguns segundos.
— A Sara não pôde vir.
Mikaelly inclina levemente a cabeça, analisando.
— Certo… foi você que armou pra pensarem que eu sou uma ladra?
Joana trava por um instante, engole seco.
— Não.
Mikaelly endurece o olhar.
— Você sabia que elas iam fazer o trote?
— Não, claro que não — respondeu Joana, rápido demais.
Mikaelly não desvia o olhar.
— Então não sei por que estou aqui.
Joana respira fundo, tentando se manter firme. Micaelly continua.
— A gente quer que os responsáveis reconheçam o erro. A não ser que estejam se escondendo…
— Foi só uma piada — Joana cortou, quase por impulso.
Mikaelly solta um riso irônico.
— Nesse caso, estão perdoadas.
Joana revira os olhos, incomodada. Mikaelly se inclina um pouco para frente, a voz mais firme:
— Isso não foi piada pra mim, Joana. Isso é sério. Agora é fácil dizer que foi brincadeira… mas isso não apaga nada.
Joana hesita, a postura cedendo um pouco.
— Eu sei. E tudo aquilo foi horrível… mas a intenção não era ser racista.
Mikaelly solta o ar pelo nariz, contida.
— Mas foi, Joana. — Ela segura o olhar dela. — E você devia estar tão ou mais incomodada que eu. Foram jogadoras do seu time.
Joana desvia o olhar por um segundo.
— Quem fez isso não queria te ofender.
Mikaelly balança a cabeça, desacreditada.
— Mesmo assim, dói. Porque a gente vive num mundo onde muita gente quer ofender a gente. — Mikaelly pega a bolsa e se levanta. — Eu vim aqui ouvir um pedido de desculpas… não esse papo furado.
Joana se levanta rápido demais, quase tropeçando nas palavras.
— E a temporada? Nenhum time quer jogar contra a gente.
Mikaelly a encara, firme, sem hesitar.
— Ótimo. E vai continuar assim até a culpada sair do time.
Joana franze a testa.
— Isso não é meio radical?
Mikaelly dá um passo em direção à porta, depois para e olha para trás.
— Como as coisas vão mudar se ninguém se responsabiliza pelo que faz? — uma pausa curta — Enquanto isso… pensa por que você ainda acha ok jogar com uma equipe racista.
Joana fica em silêncio.
Mikaelly sai.
Joana permanece parada no meio da sala, absorvendo o peso da conversa.
Lara está em uma pista de skate no bairro. Ela faz algumas manobras quando dois garotos se aproximam. Lara olha para um deles.
— Tá atrasado, Jeff.
Ele para na frente dela, meio sem graça.
— Foi mal.
Ela olha para o outro garoto, avaliando.
— E esse aí, quem é?
Jeff aponta com a cabeça.
— Esse é o Marcelo. Ele curte skate, igual a você.
Lara dá de ombros.
— Tanto faz. Trouxe o baseado?
— Sim.
Ele tira da mochila e entrega. Lara guarda e volta o olhar para Marcelo.
— Então… você anda de skate?
Ele sorri.
— Ando.
Lara o encara de cima a baixo.
— Não tô vendo skate nenhum com você.
O sorriso dele some um pouco.
— Não é porque eu ando de skate que eu tenho que andar com um o tempo todo.
Lara arqueia a sobrancelha.
— Você veio pra pista sem skate?
Marcelo olha ao redor, meio sem jeito.
— É… pois é.
Lara estende o skate para ele, com um sorriso desafiador.
— Quero ver, então.
Marcelo olha para ela, depois para o skate.
— Tem certeza?
— Se quebrar, você me compra outro.
Marcelo olha para Jeff, que sorri, incentivando.
— Vai lá, cara. Mostra o que você sabe.
Marcelo sorri de volta, mais confiante, e pega o skate.
— Tá bom.
Ele coloca o skate no chão e apoia um pé, se preparando.
Gustavo está na frente do Luca’s. Ele respira fundo e começa a caminhar, mas volta e encosta na parede.
Ele passa a mão no rosto, nervoso. Depois de alguns segundos, cria coragem, atravessa a rua e vai até Tom, que o vê e sorri.
— Bem a tempo.
Gustavo se aproxima, tentando parecer tranquilo.
— Então… não me chamam de senhor pontual à toa.
Tom franze a testa, com um sorriso confuso.
— Eles te chamam de senhor pontual?
Gustavo hesita por um segundo e fica um pouco sem graça.
— Não… na verdade, não.
Tom ri de leve. Nesse momento, alguns meninos do time de futebol entram no Luca’s. Gustavo percebe e acompanha com o olhar, ficando um pouco tenso. Ele volta a olhar para Tom.
— O café daqui é ruim. Você quer ir pra outro lugar?
Tom dá um sorrisinho,
— Ah… claro.
Ele se levanta. Os dois saem juntos.
Joana está em casa, lendo um livro. Seu pai se aproxima.
— Estudando para o grande teste?
Joana levanta a cabeça.
— Pai… se uma pessoa branca coloca um celular na bolsa de uma pessoa negra pra acusar ela de roubo… isso é racismo?
O pai para por um instante, surpreso com a pergunta, e se aproxima.
— Ela fez isso com a intenção de fazer a pessoa ser acusada por ser negra?
Joana balança a cabeça.
— Então sim, é racismo. — Ele faz uma pausa, observando a filha. — Mas por que você tá me perguntando isso?
Joana se ajeita no sofá, um pouco inquieta.
— O time de vôlei… quis revidar uma pegadinha que as meninas do Emílio Ribas fizeram com a gente. Aí acusaram a capitã delas de roubo… e agora querem que quem fez isso saia do time.
— Você sabe quem foi?
Joana hesita por um instante.
— Sei. Ela não é racista, mas… — Joana trava por um segundo. — Estão dando tanta importância pra isso que eu começo a me perguntar se ela é.
O pai se senta ao lado dela, mais sério.
— As coisas não são tão simples assim.
Joana olha para ele, esperando uma resposta mais clara.
— Era pra ser só uma brincadeira… mas agora eu não sei mais.
O pai respira fundo antes de responder.
— Olha… essas coisas não têm respostas fáceis. Mas você precisa entender uma coisa: acusar uma pessoa negra de roubo, só por ela ser negra, acontece muito. Em lojas, mercados… no dia a dia.
Joana abaixa o olhar.
— Isso é um absurdo.
O pai concorda, sério.
— É mesmo.
Joana pensa por um instante.
— Por que quem fez isso não vê problema?
— Provavelmente por ignorância. — Ele fala com calma. — São pessoas que nunca passaram por isso, nunca sentiram na pele o que é racismo… e acabam não percebendo.
Joana cruza os braços, pensativa.
— Eu tenho que ficar brava com ela?
O pai a encara com cuidado antes de responder.
— Eu não acho que seja sua responsabilidade carregar isso sozinha. — Ele faz uma pausa. — Mas, se isso te incomoda e você decidir se posicionar… eu vou ter orgulho de você.
Joana absorve aquilo, em silêncio, e balança a cabeça.
O pai a observa.
— Mais alguma pergunta?
Joana sorri de leve.
— Ainda não… mas com certeza vou ter.
Tom e Gustavo chegam a uma obra isolada.
— Eu me sinto como o Homem-Aranha quando venho aqui.
Tom sorri, olhando ao redor.
— Você vem ver os operários?
Gustavo solta um riso leve.
— Eu gosto de vir aqui. Depois que todo mundo vai embora, dá pra ficar sozinho.
Tom gira o corpo, observando o lugar com curiosidade.
— É tipo um clube secreto? — Ele olha para Gustavo, com um meio sorriso. — Meninas não são permitidas?
Gustavo sustenta o olhar por um instante, entrando na brincadeira.
— Só meninos.
Tom sorri de volta, um pouco mais atento agora.
— E o que a gente faz aqui?
Gustavo começa a andar, tentando manter o clima leve.
— Se eu te contar, vou ter que te matar.
Tom o acompanha, com um sorriso de canto.
— Nossa, é tão secreto assim?
Gustavo para em uma sacada. O sorriso desaparece aos poucos.
— Tem bastante segredos.
Tom se aproxima, percebendo a mudança.
— A gente tá se escondendo das pessoas aqui em cima?
Gustavo desvia o olhar, apoiando as mãos na mureta.
— É bom ficar longe das pessoas. Se alguém visse a gente… ia ter muita coisa pra explicar.
Tom observa ele por alguns segundos, como se estivesse juntando as peças.
— Tipo explicar que você é gay.
Gustavo fica imóvel. O silêncio se alonga.
Ele engole seco, mas não responde.
Tom dá um passo mais perto.
— Você é… então qual é o problema? — uma pausa — Você tem vergonha?
Gustavo fecha os olhos por um instante, claramente atingido. Quando abre, evita encarar Tom.
Antes que ele consiga responder, um homem se aproxima.
— Ei, vocês não podem entrar aqui.
Gustavo se vira, ainda tenso.
— A gente só está conversando.
O homem o agarra pelo braço e começa a puxá-lo.
Gustavo reage na hora, já irritado.
— Tira a mão de mim!
Ele se solta com um empurrão e sai correndo, mais impulsivo do que planejado.
Tom dá um passo pra ir atrás, mas o homem o segura.
De volta à pista de skate, Lara e Marcelo estão conversando.
— Então… eu sou bom no skate? — ele perguntou.
Lara olha para ele, fingindo pensar.
— É… um pouco.
Ele a encara, meio indignado.
— Um pouco?
Ela sorri, provocando.
— Uhum.
Ele dá um sorriso.
— Sabe o que eu acho?
Lara levanta o olhar.
— O quê?
— Que você tá com inveja.
Ela arqueia a sobrancelha e balança a cabeça, segurando o riso.
— Deve ser isso mesmo.
Os dois se encaram por um segundo e acabam rindo.
— Que papo nada a ver — disse Lara, rindo.
— Pois é.
Lara pega um baseado, acende e dá uma tragada.
— Quer?
Marcelo balança a cabeça.
— Não, valeu.
Lara dá outra tragada, mais relaxada.
— Então… o que aconteceu com seu skate?
— A rodinha soltou enquanto eu andava. — Ele desvia o olhar. — Não tenho grana pra arrumar no momento.
Lara solta a fumaça devagar.
— Eu posso dar uma olhada pra você. Eu mesmo faço a manutenção do meu.
Marcelo anima.
— Sério? Então eu te mando meu endereço assim que você me passar seu número.
Lara sorri de canto.
— Me dá seu celular, eu coloco.
Marcelo entrega o celular. Ela digita.
— E quanto você vai cobrar pra arrumar?
Ela devolve o celular.
— Relaxa. Depois você me paga uma pizza.
Ele sorri, entrando na brincadeira.
— Num encontro?
Lara olha para ele, direta.
— Não. Definitivamente, não.
No dia seguinte, Gustavo vai falar com Tom.
— Ei… a gente pode conversar?
Tom finge não ouvir e continua andando. Gustavo acelera o passo, indo atrás dele.
— Tom.
Tom dá uma rápida olhada para Gustavo, mas continua andando.
— Tem certeza de que você quer ser visto comigo?
Gustavo hesita por um instante, mas insiste.
— Cara, me desculpa mesmo pelo que aconteceu ontem.
Tom para de andar e se vira, encarando Gustavo.
— Você me deixou lá com aquele segurança. — Ele franze a testa. — O que foi aquilo?
Gustavo suspira, passando a mão no cabelo, nervoso.
— Eu tô lidando com uns problemas de raiva. Tive que sair antes de fazer alguma besteira… tipo dar um soco nele.
Tom cruza os braços, ainda incomodado.
— E a ioga também faz parte disso?
— Faz.
Tom observa Gustavo por um segundo, avaliando.
— Parece que você tá tentando, pelo menos.
Gustavo dá um sorriso pequeno, meio aliviado. Tom continua.
— Então… eu conheço uma “terapia” que pode ajudar. — Ele faz uma pausa. — Tem uma festa do clube LGBTQIA+ hoje à noite.
Gustavo abaixa a cabeça, ficando em silêncio.
Tom suspira, já esperando a resposta.
— Então você não vai se assumir mesmo?
Gustavo levanta o olhar, tenso.
— Talvez não.
Tom balança a cabeça, desapontado.
— Então você vai acabar ficando sozinho.
Tom se vira e vai embora.
Gustavo fica parado, sem reação, absorvendo o que acabou de ouvir.
Gustavo continua sua rotina, ele vai para o Ioga e depois andando pela rua, ele passa em frente a construção onde esteve com Tom No dia anterior. Ele vê Tom na rua, mas não tem coragem de falar com ele.
Lara está na casa de Marcelo, analisando o skate dele com atenção.
— Você estuda onde?
— No I.E. Estou no último ano.
— E pretende fazer faculdade?
— Sim. Quero seguir alguma coisa na área de tecnologia, mas ainda não decidi. E você?
— Eu quero fazer algo na área de artes… ilustração.
Marcelo levanta uma sobrancelha, curioso.
— Você desenha?
— Sim. É a minha maior paixão.
Antes que ele responda, o portão range e um homem entra. Lara levanta a cabeça. Marcelo também olha.
— E aí, Fabrício. Chegou cedo. Essa é a Lara, ela veio dar uma olhada no meu skate. — Marcelo olha para ela. — Lara, esse é meu irmão, Fabrício.
Fabrício acena com a mão, de forma tranquila.
— Oi, Lara. Fica à vontade. — Ele olha para Marcelo. — Vou tomar um banho.
Ele entra na casa, e Lara volta a mexer no skate. Marcelo se aproxima, encostando de leve na bancada.
— Ele trabalha muito.
— Legal — disse Lara, sem tirar os olhos do skate. Ela levanta o shape e gira uma das rodinhas. — Pronto. Se você não fizer nenhuma besteira com ele, vai durar bastante tempo.
Marcelo solta um sorriso de canto.
— E aí… que dia você está livre pra gente comer uma pizza?
Lara pega a mochila e a coloca nas costas. Em seguida, pega o skate dela.
— A gente combina melhor depois.
Eles caminham até o portão. Lara coloca o skate no chão.
— Tchau, Marcelo.
— Lara, espera.
Ela olha para ele, um pouco desconfiada.
— Por que não pode ser um encontro?
Lara desvia o olhar, claramente desconfortável.
— É… complicado.
Marcelo dá um passo mais perto, insistindo, mas com a voz mais baixa.
— Não precisa ser.
Ele a beija de repente. Lara se afasta na mesma hora, surpresa e irritada.
— Por que você fez isso?
Sem esperar resposta, ela sobe no skate e vai embora.
Marcelo fica parado por um instante, frustrado, e solta um muxoxo.
— Droga.
Gustavo está parado na rua em frente ao local da festa do clube LGBTQUIPNA+. De repente, Adryan aparece carregando umas caixas.
— Gu, ainda bem que te encontrei. Você pode me ajudar a levar umas coisas?
Gustavo hesita. Antes que responda, fala meio distraído:
— Cara, agora não dá… eu preciso dar uma volta. Desculpa.
Adryan para e observa melhor a expressão de Gustavo.
— Você tá bem, cara? Quer conversar?
Gustavo desvia o olhar, inquieto.
— Não quero conversar agora. Só preciso ficar sozinho e pensar.
Adryan assente, entendendo, mas sem ir embora.
— Olha… eu consegui um freela aqui na festa. Eles estão precisando de gente. — Ele dá um meio sorriso. — Vai ter um monte de hétero lá… você pode fingir que é um de nós.
Gustavo levanta o olhar, mais sério.
— Eu tô cansado de fingir, cara.
Adryan percebe o peso daquilo.
— Tá… foi mal. — Ele faz uma pausa. — Mas, se quiser, você pode só me ajudar a vender bebidas.
Gustavo pensa por um segundo, ainda meio perdido.
— Valeu, cara… eu vou aceitar. Vamos logo com isso.
Adryan sorri, pega uma caixa e entrega para ele.
— Você tá nervoso?
Gustavo solta um riso curto.
— Tô me sentindo um idiota.
Adryan olha pra ele, sincero.
— Eu também, cara. Eu também.
Dentro da festa, a música está alta. Gustavo deixa uma caixa no balcão e avista Carol. Ela sorri ao vê-lo; ele acena de volta. Ao olhar para o lado, vê Tom dançando animado. Os dois trocam olhares, e Tom se aproxima, sorrindo.
— Você veio?
Gustavo sorri, ainda meio sem acreditar.
— Eu nem sabia dessa festa… metade da escola tá aqui.
Tom ri de leve.
— Sempre rolam umas festas aqui. Mas relaxa… tenta se divertir.
Tom se vira para sair, mas Gustavo segura o braço dele.
— Tom… isso tudo é novo pra mim.
Tom olha para ele, com um sorriso mais tranquilo.
— É novo pra todo mundo. — Ele sorri. — Esse lugar abriu faz pouco tempo.
Gustavo dá um pequeno sorriso, ainda meio tenso. Tom se aproxima um pouco mais.
— Mas, falando sério… eu também demorei pra me entender. — Ele respira de leve. — Eu me assumi faz três anos, Gu. Ainda tô descobrindo as coisas.
Ele segura a mão de Gustavo com naturalidade.
— Vem… vamos dançar.
Gustavo começa a dançar meio travado, desajeitado. Tom ri.
— Tá, vamos tentar de novo. — Ele ajusta o ritmo com as mãos. — Dessa vez vai dar certo.
Gustavo entra na brincadeira, sorrindo.
— Custe o que custar.
Os dois saem de mãos dadas e começam a dançar, aos poucos mais soltos, acompanhando a música.
Lara está sentada na cama, olhando para o celular há alguns minutos. A conversa com Ellie aberta. Várias mensagens não respondidas.
Ela respira fundo, cria coragem e começa a digitar.
Lara: Oi…
A resposta vem rápido demais.
Ellie: Lara?
Lara trava por um segundo, surpresa.
Ellie: Você tá bem?
Lara morde o lábio antes de responder.
Lara: Tô… desculpa sumir assim.
Demora alguns segundos.
Ellie: Eu achei que você não queria mais falar comigo.
Lara fecha os olhos por um instante.
Lara: Não é isso.
Ellie: Então o que é?
Lara demora mais dessa vez. Apaga, escreve de novo.
Lara: Eu só… precisei de um tempo.
Ellie: Tempo de mim?
A pergunta fica ali. Lara encara a tela.
Lara: Não. Tempo pra mim.
Mais alguns segundos de silêncio.
Ellie: Doeu, sabia?
Lara engole seco.
Lara: Eu sei… desculpa.
Ellie: Você disse que a gente ainda podia ser amiga.
Lara: E podemos.
Ellie: Então por que você sumiu?
Lara passa a mão no rosto, frustrada consigo mesma.
Lara: Porque eu fiquei com medo.
Ellie: Medo de quê?
Lara hesita… mas decide ser sincera.
Lara: De ainda gostar de você.
A resposta demora dessa vez.
Ellie: Eu também ainda gosto de você.
Lara segura a respiração.
Ellie: Isso não mudou.
Lara sente os olhos marejarem.
Lara: Eu sei… é por isso que eu me afastei.
Ellie: Isso não faz sentido.
Lara: Eu achei que podia atrapalhar você… seu tratamento… tudo.
Silêncio.
Ellie: Lara… você não é um problema.
Outra pausa.
Ellie: O que doeu foi você ter se afastado.
Lara respira fundo.
Lara: Eu posso tentar fazer melhor agora.
A resposta vem mais calma.
Ellie: Então não some de novo.
Lara sorri de leve, emocionada.
Lara: Não vou.
Pausa.
Ellie: A gente pode ir devagar?
Lara: Pode.
Ellie: Como amigas… por enquanto.
Lara hesita por um segundo, mas aceita.
Lara: Tá bom.
Ellie: Eu senti sua falta.
Lara deixa escapar um sorriso triste.
Lara: Eu também.
Lara apoia o celular no peito e fecha os olhos, aliviada… mas ainda com sentimentos confusos.
Joana chega ao treino e vê Sara e Lila conversando.
— Eu só acho que elas estão exagerando. Não foi racismo — disse Sara.
Lila balança a cabeça.
— Eu sei, Sara… mas não custa nada pedir desculpa, como eu fiz.
Sara cruza os braços, irritada.
— Eu não vou pedir desculpa. Foi uma piada. Eu não tenho culpa se elas não têm senso de humor.
Joana se aproxima, ouvindo a conversa. Sara a vê e abre um sorriso.
— Oi! Como foi? A gente vai poder jogar? Se sim, eu te pago um milhão de milk-shakes.
Joana não retribui o sorriso.
— A gente pode conversar?
Lila percebe o clima e se afasta. Sara e Joana se sentam na arquibancada do ginásio.
— O que foi, Jo?
Joana respira fundo antes de falar.
— Isso vai ser difícil…
Sara fica mais séria, já tensa.
— Você tá me assustando.
Joana olha direto para ela.
— Você vai ter que sair do time.
Sara demora um segundo para reagir.
— Você disse que fui eu?
— Não, mas…
— E você explicou que não era racismo, né? — Sara interrompeu, mais rápida, quase na defensiva.
Joana mantém o olhar firme.
— Mas foi racista, Sara.
Sara arregala os olhos, sem acreditar.
— Sério?
— Mesmo sem intenção, você machucou pessoas. — Joana falou com calma, mas firme. — Se a gente deixar você ficar, vai parecer que concordamos com isso… que eu concordo. E eu não concordo.
Sara fica em silêncio por alguns segundos, absorvendo.
— Você acha isso de mim?
Joana hesita, mas responde.
— Eu acho que você errou. E feio. Mas não é meu dever consertar isso por você.
Sara engole seco.
— Então… o que eu faço?
Joana desvia o olhar por um instante, depois volta.
— Você vai ter que sair do time, Sara.
Joana se levanta e se afasta.
Sara fica sentada, sozinha, tentando processar tudo.
Mais tarde, Gustavo e Tom caminham pela rua.
— Então… como foi seu primeiro encontro com um garoto? — perguntou Tom.
Gustavo sorri, meio tímido.
— Na próxima, eu te levo a um jogo de futebol.
Tom ri de leve.
— Sua dança não foi tão ruim... — Ele olha para Gustavo, percebendo o que foi dito. — Espera… você disse “na próxima”?
Gustavo dá um sorrisinho.
— Ué… a gente se divertiu, não foi? Provavelmente vamos se divertir de novo.
Tom sorri, gostando da ideia.
— Boa ideia. A gente tem que aproveitar isso.
Gustavo concorda.
— Com certeza.
Um carro se aproxima e para ao lado deles.
— Meu Uber — disse Tom.
Ele caminha até o carro e abre a porta.
Gustavo dá um passo mais perto.
— Você tem meu número, né?
Tom se vira e confirma com a cabeça.
— Tenho, sim. — Ele sorri. — Fico feliz que você tenha ido à festa hoje.
Gustavo sorri de volta.
— Eu também.
Tom começa a entrar no carro.
— Tom…
Tom olha para trás. Gustavo se aproxima e o beija, rápido, mas intenso.
Os dois se afastam. Tom sorri, surpreso, e entra no carro, que logo parte.
Gustavo fica parado na rua, sorrindo sozinho, como se um grande peso tivesse saído dos seus ombros.
Sinopse do Próximo Capítulo – Aí Está O Problema
Peter se interessa por Nicole, mas se surpreende ao descobrir que ela é imune aos seus encantos. Os sentimentos de Lory por Johnny começam a atrapalhar o namoro dela com Dani, e Dani começa a perceber que algo está acontecendo.
Atualizado em: Ter 22 Set 2026
