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Escola Grasso 401 – Na Noite Fria

O time de vôlei da Grasso treinava pesado para o campeonato estudantil que se aproximava. As co-capitãs, Sara e Joana, puxavam o ritmo, sempre exigindo mais do grupo.
Depois do treino, o clima muda completamente. No vestiário, as meninas conversam, relaxadas, enroladas em toalhas, ainda ofegantes.
— Este ano é nosso — disse Sara, sorrindo. — Com você no saque, Joana, ninguém segura.
Joana dá uma risada curta, balançando a cabeça.
— Fala sério. E a sua cortada? Aposto que você ficou treinando nas férias.
Lila, observa as duas e solta um sorrisinho de canto.
— É quando ela não estava ocupada beijando.
— Rafa! — Lila e Joana falam ao mesmo tempo.
Sara olha animada 
— Eu sei fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo.
Joana lança um olhar para Lila, ainda rindo.
— A Escola Emílio Ribas vai sofrer na nossa mão na próxima partida.
Sara, que estava abrindo o armário, para por um segundo e vira rápido.
— A gente vai jogar contra aquelas meninas? — ela faz uma careta. — Elas dão medo. Sério, parecem criminosas. — Ela olha para Joana. — Sem ofensa.
Joana franze a testa, confusa.
— Por que eu me sentiria ofendida?
Sara já nem responde. Fica em silêncio, olhando dentro do armário.
— Gente. Onde estão minhas roupas?
Lila congela por um segundo, depois começa a olhar em volta, aflita.
— Espera… minhas calças… — ela puxa o banco, olha embaixo. — Minha camisa também sumiu!
Joana vai até o próprio armário, abre, mexe, fecha com força.
— As minhas também não estão aqui.
O clima leve desaparece na hora.
De repente o alarme de incêndio dispara, alto, estridente, cortando tudo.
As três se encaram.
— Isso só pode ser brincadeira —Sara, murmurou irritada.
Sem opção, elas saem às pressas do vestiário, ainda enroladas nas toalhas, tentando se cobrir como dá. Do lado de fora, vários alunos já estão reunidos, alguns cochichando, outros tentando disfarçar o riso.
Sara fecha a cara na mesma hora.
— Eu vou matar alguém.
Então, como se fosse planejado, um grupo surge: o time de vôlei da Escola Emílio Ribas.
Elas levantam um monte de roupas.
— Estão lindas, garotas! — gritou uma das garotas, debochada.
As outras riem.
Sem parar, elas jogam as roupas no chão e saem correndo, ainda rindo.
Sara olha para as roupas no chão, depois para onde elas foram. O rosto dela endurece, os olhos cheios de raiva.
— Isso não vai ficar assim... Vamos nos vingar.
 
Enquanto isso, Lara, que ainda está morando com os pais de Ellie, termina de se arrumar para a escola. Ela respira fundo antes de sair do quarto, como se estivesse se preparando para algo.
Na cozinha, Marta organiza a mesa do café.
— Marta… — Lara começa, um pouco hesitante. — Eu recebi pelo trabalho do fim de semana. Já mandei uma parte para o Roberto.
Marta levanta os olhos na hora.
— Lara, você não precisava fazer isso.
Lara dá de ombros, tentando parecer tranquila, mas claramente um pouco tensa.
— Precisava, sim. Eu não posso ficar aqui sem ajudar em nada. 
Ela faz uma pausa, olhando para as próprias mãos. 
— E… eu também vou começar a procurar outro lugar para ficar. Não faz mais sentido eu continuar aqui. Eu e a Ellie… — ela engole seco — …a gente não está mais juntas.
Marta suspira de leve e se aproxima, com um olhar mais suave.
— Lara… Eu já te disse que você pode ficar aqui pelo tempo que precisar.
Lara levanta o olhar, meio dividida.
— Eu sei, mas não quero incomodar.
Marta balança a cabeça na mesma hora, cortando a ideia.
— Você não está incomodando. — Ela dá um pequeno sorriso, tentando aliviar o clima. — E, além disso, você e a Ellie não tinham combinado de continuar amigas?
Lara hesita por um segundo, mas concorda.
— Sim.
— Então pronto. — Marta abre um pouco os braços. — Aqui sempre vai ter espaço para as amigas da Ellie.
Lara deixa escapar um sorriso pequeno, mais leve, como se finalmente pudesse relaxar um pouco.
Marta então aponta para a mesa, mudando o tom para algo mais cotidiano:
— Agora senta e come alguma coisa antes de ir para a escola.
Lara solta um riso baixo, quase sem perceber.
— Tá bom.
Ela se senta, ainda com um monte de coisas na cabeça, mas, pelo menos por aquele momento, um pouco mais tranquila.
 
Na escola, Lara está em seu armário.
A voz firme do novo diretor ecoa pelo lugar:
— Bom dia, alunos. Eu sou Daniel Fernandes, o novo diretor da Grasso. Sejam bem-vindos ao primeiro dia de aula deste semestre.
Lara fecha o armário e Adryan se aproxima.
— Então… é verdade mesmo? — perguntou Adryan, meio sem jeito. — A Michelle foi para o Canadá?
Lara olha para ele, surpresa pela abordagem direta, mas responde com calma:
— Bom dia, Adryan. — uma pausa leve — Sim, foi. Vai dirigir uma escola lá.
— Bom dia — ele respondeu, meio distraído. — Sei lá… parece que está todo mundo indo embora. A Michelle, a Maju… — Ele hesita por um segundo antes de completar: — A Ellie.
O nome pesa no ar.
Lara desvia o olhar por um instante, mas se recompõe.
— Sim… — ela fala, mais tranquila do que realmente está. — Mas foi por coisas boas. A Ellie foi fazer o tratamento. Isso é importante, não é?
Adryan concorda com a cabeça.
— É… é, sim.
E a Maju, agora é famosa e vai sair em turnê.
De repente, alguém interrompe a conversa.
— Oi, Lara.
A voz corta o momento.
Bella se aproxima, parando um pouco perto demais.
Lara olha para ela o olhar mais fechado e não responde de imediato.
O clima muda na hora.
Adryan percebe, olha de uma para a outra, claramente desconfortável.
— Tá… eu vou indo para a sala.
Sem esperar resposta, ele se afasta rápido.
Bella respira fundo, tentando não parecer nervosa.
— A Ellie está bem?
— Vai ficar.
A resposta é curta, quase automática.
Bella assente, juntando coragem.
— A gente pode conversar no almoço?
Lara solta um suspiro, já prevendo problema.
— Para quê? Para a gente brigar de novo?
Bella balança a cabeça na hora.
— Não. — ela fala mais rápido do que o normal — Não é isso. É só… conversar. De verdade, dessa vez.
Lara observa ela por um momento, tentando decidir se acredita.
— Tá… — ela cede, ainda meio desconfiada — A gente conversa.
O sinal toca, alto, interrompendo qualquer continuação.
As duas se encaram por um segundo, ainda meio travadas, e então se afastam.
 
Sara, Lila e Joana entram na sala usando os moletons do time de vôlei. 
Sara está andando enquanto lê um papel, fazendo careta.
— “Peixe morto na ventilação, esterco na cama…” — ela abaixa o papel, com nojo — Esses trotes são muito nojentos.
Ela joga o papel na mesa e se senta.
— A gente pode fazer algo melhor. Tipo… mandar um envelope cheio de purpurina.
Lila, que está ao lado, abre as mãos, animada.
— Tipo assim, muita purpurina. Daquelas que nunca mais saem.
Sara olha para ela.
— Não é uma má ideia.
Joana se senta ao lado, mais quieta, observando.
Sara vira para ela.
— E aí? Tem alguma ideia?
Joana nem pensa muito antes de responder:
— Tenho. Não fazer nada.
O sorriso de Sara desaparece.
— Como assim?
Joana cruza os braços, firme.
— A gente resolve isso na quadra. Jogando. Como deveria ser.
Sara se inclina um pouco para frente, já irritada.
— Elas fizeram a gente passar vergonha na frente da escola inteira.
Joana sustenta o olhar.
— E você acha que fazer a mesma coisa vai melhorar?
Sara respira fundo, tentando se controlar.
— A gente é melhor que elas, sim. Mas não dá para fingir que não aconteceu nada. — Ela gesticula, impaciente. — Se a gente só ignorar, elas vão achar que podem fazer qualquer coisa.
Joana balança a cabeça, perdendo a paciência.
— Sério mesmo que você acha isso uma boa ideia?
Enquanto isso, Lila se afasta um pouco e começa a falar com outras meninas do time que estão na sala, Sara continua falando.
— A gente não pode ficar parada — disse, mais baixo, mas firme — Elas vão achar que a gente é fraca.
Joana olha para Sara, séria.
— Isso é uma péssima ideia.
Sara franze a testa, sem entender.
— O que deu em você? Por que você está tão contra?
Joana responde direto:
— Porque eu não quero fazer isso. É idiotice. E só vai dar problema.
O sinal toca, alto, interrompendo a conversa.
Alguns alunos começam a se ajeitar nas carteiras.
Lila volta rápido para perto de Sara, se inclinando para falar baixo:
— Deu certo. As meninas toparam.
Ela sorri, empolgada.
— A gente vai fazer, né?
Sara olha para Joana por um segundo ainda sem entender completamente a resistência dela.
Depois volta o olhar para Lila.
A dúvida ainda está ali… mas a decisão também.

A sala ainda está enchendo. Alguns alunos conversam, outros mexem no celular.
Lara entra, meio distraída, e se senta na carteira. Ela ajeita o material, tentando focar.
Atrás dela, Adryan se inclina para frente, apoiando os braços na mesa.
— Términos são uma droga, né?
Lara se assusta levemente e vira rápido.
— Adryan! — ela solta um suspiro — Já é a segunda vez que você me assusta hoje.
Ele dá um sorriso, meio sem graça.
— Foi mal.
Lara relaxa um pouco e se vira de lado na cadeira, apoiando o braço no encosto.
— Você está bem? Digo… por causa da Carol.
Adryan dá de ombros, olhando para a mesa.
— Estou meio… estranho. — ele faz uma careta leve — Sei lá, solitário.
Lara franze a testa.
— Ah, para. Você tem um monte de amigos.
Adryan balança a cabeça, negando.
— Não é isso. — ele levanta o olhar — Estou falando de gostar de alguém, sabe? É diferente.
Lara entende na hora. O olhar dela suaviza.
— Eu sei.
Ela faz uma pausa antes de continuar:
— Términos são complicados mesmo. Mas… ajudam a gente a crescer também.
Adryan dá um sorriso, pouco convencido.
— É… talvez.
Ele passa a mão na nuca, pensativo.
— Mas ainda é estranho.
Lara sorri de leve, tentando animar.
— Isso passa. E você vai acabar conhecendo alguém melhor.
Adryan solta um ar pelo nariz, quase rindo.
— Tomara.
Lara dá um último sorriso e se vira para frente, enquanto o professor começa a entrar na sala.
Adryan se recosta na cadeira, ainda pensativo, mas um pouco mais leve.
 
Na hora do almoço, Sara e Rafa estão sentados juntos, dividindo a mesma mesa.
Sara observa o prato dele e dá um sorriso de canto.
— Você não vai comer o pão de alho?
Rafa olha para o prato.
— Estou sendo um namorado gentil.
Sara nem hesita: pega o pão de alho e dá uma mordida.
Rafa acompanha o movimento com um sorriso.
— Olha… você vai ter que se esforçar mais se quiser que eu não te beije. — Ele faz uma pausa, inclinando um pouco a cabeça. — Embora eu ainda esteja tentando lidar com o fato de que a escola inteira te viu só de toalha.
Sara para de mastigar por um segundo. O sorriso desaparece.
O clima muda.
Rafa percebe na hora.
— Ok… — ele levanta as mãos, recuando — não posso brincar com isso?
Sara engole, mais séria agora.
— Foi constrangedor, de verdade. — Ela olha para a mesa, mexendo no próprio prato. — Eu quero me vingar. Muito. — ela respira fundo — Mas a Joana acha uma péssima ideia.
Rafa franze a testa.
— Por quê?
Sara dá de ombros, irritada.
— Sei lá. Ela acha que é idiotice, que a gente tem que focar no campeonato… — Ela levanta o olhar, agora mais envolvida. — Mas as outras meninas toparam. O que devemos fazer?
Rafa pega um guardanapo, limpa a boca com calma, como se estivesse pensando seriamente.
— Olha… se tem uma coisa que eu aprendi na vida até agora… — Ele faz uma pausa dramática. — É que você sempre se vinga.
Sara vira o rosto para ele, incrédula.
— O quê? — Ela dá um sorriso, sem acreditar. — Você não era o sr. certinho?
— Eu sou. Nas coisas que importam. — Ele se inclina um pouco na direção dela, mais sério. — Mas o que elas fizeram, não pode ficar sem resposta.
Sara aponta para ele, concordando, animada de novo.
— Foi exatamente o que eu disse! — Ela logo perde um pouco do entusiasmo. — O problema é que a Joana não me ouve. O que eu faço com ela?
Rafa pensa por um segundo antes de responder:
— Você não faz nada. Não dá para forçar. Se ela não quiser participar, ela fica de fora.
Sara fica em silêncio por um instante, assimilando, depois concorda com a cabeça.
Ela cruza os braços, já com um brilho de determinação no olhar.
— Então agora a gente só precisa de um plano.
 
Na parte de fora da escola, Bella já está sentada, mexendo nos dedos, claramente nervosa.
Lara se aproxima e para na frente dela, com o rosto mais fechado.
— O que você queria conversar?
Bella olha para ela e respira fundo antes de falar.
— O pai e a mãe… — ela hesita — eles querem falar com você.
Lara se senta, ainda séria.
— Sobre o quê?
Bella apoia os braços na mesa.
— Sobre você voltar para casa.
Lara já esperava, mas mesmo assim fica em silêncio por um segundo.
— Você e a Ellie terminaram… — Bella continua, com cuidado — então eles acham que não faz mais sentido você continuar morando lá.
Lara desvia o olhar, mexendo na própria mão.
— Eu também acho. — Ela levanta o olhar de novo. — Mas, se eles querem tanto isso, por que não falam comigo?
Bella solta um suspiro leve.
— Eles não me pediram para falar com você.
Lara franze a testa.
— Então por que você está falando?
Bella olha pra irmã com um olhar triste.
— Porque eu vejo.
Lara fica em silêncio.
— O pai fica olhando suas fotos de quando você era menor… quase todo dia.
A fala atinge.
Lara abaixa o olhar na hora, engolindo seco.
— Ele acha que ninguém percebe — Bella continuou, mais baixo — mas eu percebo.
Um silêncio pesado se instala entre as duas.
Lara suspira fundo.
— Tá…
Ela passa a mão no cabelo, pensativa.
— Eu vou falar com eles hoje.
Ela olha para Bella, sincera.
— Mas não prometo nada.
Bella sorri de leve, aliviada só por isso.
— Já é o suficiente.
Ela hesita por um segundo antes de continuar:
— Eu sinto sua falta lá em casa.
Lara levanta o olhar.
— No nosso quarto… — Bella dá um sorrisinho nostálgico — não é a mesma coisa sem você. — A voz dela fica mais suave. — Você não é só minha irmã. Você é minha melhor amiga. E está sendo difícil sem você.
Lara observa ela por alguns segundos, claramente mexida, mas tentando não demonstrar tanto.
— Tá…
Ela se levanta devagar.
— Eu vou lá hoje. Converso com eles… e a gente vê no que dá.
Bella assente, ainda com um pequeno sorriso.
— Obrigada.
Lara dá um aceno leve e se afasta.
Bella fica olhando ela ir com um misto de esperança e saudade.
 
Durante o treino de vôlei, o clima ainda está meio estranho. As meninas do time da Grasso se aquecem, mas a conversa gira em torno do que aconteceu mais cedo.
Agnes se aproxima de Sara, falando mais baixo:
— Eu topei entrar no trote… mas não quero que seja algo pesado, tá?
Sara vira o rosto para ela na hora, séria.
— Pesado? — ela solta um riso curto. — O que fizeram com a gente foi o quê, então?
Agnes fica meio sem graça, mas tenta se explicar:
— Eu sei, eu sei… só não quero que isso vire uma coisa pior.
Sara suspira, claramente ainda irritada, mas antes que responda.
A porta da quadra se abre.
Todas olham.
Mikaelly entra com o técnico dela, Renato, ao lado do técnico da Grasso, Rogério Albuquerque.
O burburinho diminui.
Rogério chama a atenção do time:
— Meninas, esse é o Renato, técnico da Emílio Ribas. Ele quer falar com vocês.
Renato dá um passo à frente, com postura séria.
— Eu fiquei sabendo do que aconteceu hoje de manhã. — ele olha para o grupo inteiro — Quero deixar claro que eu não incentivo esse tipo de atitude.
Ele faz um gesto com a mão, indicando Mikaelly.
— A Mikaelly é a capitã e quer se desculpar.
Um silêncio se instala.
Mikaelly dá um passo à frente. A postura dela é correta… mas o olhar entrega outra coisa.
— Meninas… — ela começa — Em nome do time, eu quero pedir desculpas. O que a gente fez foi errado.
Algumas meninas trocam olhares. Ninguém responde.
Rogério aproveita o momento e se adianta, encerrando rápido:
— Certo, então está resolvido. — Ele olha para Renato. — Nos vemos amanhã. — Depois se vira para o time: — Garotas, já volto para começarmos o treino. Vão se aquecendo.
Os dois treinadores se afastam, conversando entre si.
Assim que eles saem de perto.
O clima muda completamente.
Sara encara Mikaelly sem disfarçar a raiva.
Mikaelly sustenta o olhar por um segundo… e então abre um sorriso de canto, debochado.
Nada de arrependimento.
Ela vira as costas e começa a sair.
Sara observa, os olhos estreitos.
Um segundo de silêncio.
Então ela sorri também, mas é um sorriso totalmente diferente.
— Ok… — ela murmura, cruzando os braços — agora eu tenho uma ideia.
 
Lara entra com Bella em casa. Ela olha ao redor, como se estivesse revendo tudo depois de muito tempo.
Eduardo aparece no corredor e, ao ver Lara, o rosto dele muda na hora.
— Lara… filha!
Ele vai até ela rápido e a abraça forte.
Lara corresponde, meio surpresa, mas acolhendo.
— Pai… eu vim conversar.
Eduardo se afasta, claramente feliz, tentando não demonstrar demais.
— Ótimo, ótimo. Sua mãe saiu, mas vai adorar saber que você veio.
Ele aponta para o sofá.
— Vem, vamos sentar.
Eles se sentam. Bella observa os dois, sorrindo, aliviada.
— Eu vou fazer aquele suco de maçã que você gosta — disse Bella, já se levantando — já volto.
Ela sai, deixando os dois sozinhos.
Um silêncio leve.
Pai e filha se encaram.
— Eu…
— Eu…
Os dois falam ao mesmo tempo.
Eles riem, quebrando a tensão.
— Fala, pai — disse Lara, mais tranquila.
Eduardo respira fundo, direto ao ponto:
— Volta para casa. Seu lugar é aqui.
Lara abaixa o olhar por um segundo, pensando.
Ela respira fundo antes de responder:
— Eu volto.
Eduardo já começa a sorrir — mas ela continua:
— Mas eu não quero voltar para o atletismo.
O sorriso dele diminui um pouco, mais surpreso do que bravo.
— Mas você sempre gostou de correr…
Lara balança a cabeça, calma, mas firme.
— Eu gosto. Só não quero competir. — Ela olha direto para ele. — Eu não quero ser atleta profissional. Não faz sentido continuar na equipe.
Eduardo observa ela com atenção, tentando entender.
— Então… você quer focar em arte?
Lara solta um pequeno sorriso, sincero.
— É o que eu mais quero.
Um silêncio. Ele pensa.
— Mas… não tem nenhum esporte que você queira fazer? Isso ajuda muito se você quiser estudar fora.
Lara se anima um pouco.
— Tem, sim. A gente está montando uma equipe de skate na escola. Park e street.
Eduardo levanta as sobrancelhas, surpreso, mas interessado.
— Skate?
Ele sorri de leve.
— É… quem sabe você não vai parar nas Olimpíadas?
Lara ri, relaxando de verdade agora.
— Vou ter que melhorar muito pra isso.
Eduardo ri também, entrando na brincadeira.
— Quando eu tinha sua idade, eu andava muito de skate. — Ele começa a contar, animado. — Quebrei um braço, duas costelas… tive várias concussões…
Lara revira os olhos, sorrindo.
— Você já contou isso, pai.
— Nunca é demais reforçar — ele responde, brincando.
Os dois riem.
O clima agora é outro: mais leve, mais próximo.
 
O corredor da escola está vazio. O som distante de bolas quicando na quadra ecoa.
Sara e Lila caminham encostadas na parede, olhando para frente e para trás, claramente tentando não chamar atenção.
Lila está nervosa.
— Eu ainda acho que isso pode dar muito errado.
— Relaxa. Confia em mim — disse Sara.
Mais à frente, Rogério e Renato conversam, de costas para o corredor.
Um pouco afastada deles, está Mikaelly, mexendo no celular, sua mochila está em um banco próximo.
Sara para de repente e segura o braço de Lila.
— É agora. Vai lá. Distrai ela.
Lila arregala os olhos.
— O quê você vai fazer?
— Depois eu te explico.
Lila se afasta.
Sara tira algo do bolso: o celular de Joana.
Sara observa, tensa, pronta para agir.
Lila se aproxima de Mikaelly, fingindo casualidade.
— Oi… posso falar com você um segundo?
Mikaelly levanta o olhar, desconfiada.
— Depende. Vai reclamar de alguma coisa?
Lila força um sorriso.
— Não. Na verdade… eu só queria entender uma coisa.
Mikaelly cruza os braços, interessada, mas ainda em alerta.
Enquanto isso, Sara se aproxima por trás, silenciosa, olhando rapidamente para os treinadores — ainda distraídos na conversa.
Ela chega perto, atrás de Mikaelly.
Então
Abre levemente a mochila de Mikaelly.
E desliza o celular de Joana para dentro.
 
Lara chega na casa de Marta e Roberto e respira fundo antes de ir até a cozinha.
Marta está ali, mexendo em algo no fogão.
Lara aparece na porta.
— Marta…
Marta olha para trás e sorri ao vê-la.
— Oi, Lara.
Lara se aproxima, um pouco sem jeito.
— Desculpa a demora. Eu passei em casa antes… fui conversar com o meu pai.
Marta percebe o tom diferente e presta mais atenção.
— E aí?
Lara dá um pequeno sorriso, meio aliviado.
— A gente se acertou. — Ela faz uma pausa curta. — Eu vou voltar pra casa.
Marta abre um sorriso sincero, claramente feliz por ela.
— Isso é ótimo, Lara. — Ela se aproxima e toca no braço dela com carinho. — Fico muito feliz por você.
Lara relaxa um pouco.
— Obrigada.
Ela olha em volta, já entrando no assunto difícil.
— Eu vim pegar minhas coisas, tá?
Marta assente.
— Claro.
Mas antes que Lara se afaste, Marta continua:
— Só que antes eu tenho uma novidade.
Lara para e olha para ela, curiosa.
— Eu, o Roberto e a Esther vamos para São Paulo… ver a Ellie.
Lara reage na hora, o sorriso desaparecendo um pouco, substituído por preocupação.
— Ela está bem?
Marta responde com calma, tranquilizando:
— Está, sim. Está se alimentando melhor. — Ela sorri de leve. — Só está morrendo de saudade da gente.
Lara solta um pequeno riso, mais leve.
— Imagino… ela é bem apegada a vocês — Ela dá um sorrisinho de canto. — Filhinha da mamãe.
Marta ri junto.
— Sim. — Um pequeno silêncio confortável. — Você não quer ir com a gente? Até o Adryan vai.
Lara hesita por um segundo, mas balança a cabeça.
— Dessa vez não. — Ela fala com calma, mas decidida. — Quero passar o fim de semana com os meus pais… e também tenho que trabalhar.
Marta entende na hora, sem insistir.
— Tudo bem. A gente se organiza melhor e, na próxima, você vai com a gente.
Lara sorri de volta, mais tranquila.
— Com certeza.
As duas trocam um olhar sincero.
 
Um tempo depois, Mikaelly está no hall de entrada da escola, Renato se aproxima, sério.
— Mikaelly, vem aqui um minuto.
Mikaelly franze a testa, sem entender, e se aproxima.
— O que foi?
Renato olha para ela por um segundo, avaliando.
— Recebi uma denúncia agora há pouco.
— Denúncia de quê?
Renato respira fundo antes de falar.
— De que você pegou algo que não é seu.
Silêncio.
Mikaelly solta uma risada curta, incrédula.
— Você está falando sério?
— Estou. Preciso que você abre a sua mochila.
Joana se aproxima.
Mikaelly fica mais séria.
— Eu não peguei nada.
— Então não tem problema em mostrar.
Mikaelly encara ele por um segundo, claramente ofendida, mas puxa a mochila com força e abre.
Ela começa a mexer nas coisas, 
De repente, ela para.
Lá está o celular de Joana.
O silêncio agora é pesado.
Renato chega mais perto.
— O que é isso?
Mikaelly pega o celular devagar, olhando como se não acreditasse.
— Eu… eu não sei como isso foi parar aqui.
Mikaelly olha em volta, e vê Joana.
— Eu não roubei nada!
Renato mantém a postura firme.
Esse celular é de uma aluna da Grasso.
Ele estende a mão.
— Me dá isso.
Mikaelly hesita, depois entrega.
— Estou falando a verdade.
Renato pega o celular, sem demonstrar reação.
— Você está afastada do time.
Um pouco afastadas, escondidas na curva do corredor
Sara e Lila observam tudo.
Lila está claramente nervosa.
— Isso saiu do controle.
Sara mantém os olhos fixos na cena, séria.
— Ela mereceu.
Lila olha para ela, preocupada.
— Sara…
Sara finalmente desvia o olhar, mas sem arrependimento.
— Elas começaram.
 
Mais tarde, Lara entra em casa com o pai, Eduardo, que carrega a mala dela.
Na sala, Solange está de pé, ao telefone.
— Sim, depois a gente resolve isso… — ela para ao ver Lara — eu te ligo depois.
Ela desliga, ainda olhando.
— Lara?
Lara dá um sorriso pequeno, tentando suavizar o momento.
— Voltei.
Solange cruza os braços, analisando.
— Ótimo. Ainda bem que você percebeu que aqui é o seu lugar.
O comentário não soa tão acolhedor quanto deveria.
Lara troca um olhar rápido com o pai.
— Eu vou tomar um banho… e depois comer alguma coisa.
Eduardo tenta manter o clima leve.
— Claro, filha. Eu levo suas coisas lá para cima.
Lara começa a subir, mas Solange se aproxima dela.
— Perfeito. Vou avisar o treinador Miguel que você voltou para a equipe.
Lara para no meio do caminho.
O corpo dela tensiona.
— Eu já falei com o pai sobre isso.
Eduardo se aproxima, um pouco desconfortável.
— Filha… na verdade… sua mãe e eu achamos melhor você voltar para o atletismo.
Lara solta um riso curto.
— Você está falando sério?
— Estamos — disse Solange, firme.
Eduardo continua.
— São só dois treinos por semana. Você ainda vai ter tempo estudar artes.
Lara encara os dois, desacreditada.
Antes que ela responda, Bella desce as escadas correndo, animada.
— La! Você chegou! Vem, vamos pro quarto.
Lara olha para ela, agora com outro tipo de expressão.
— Foi tudo combinado?
Bella trava.
— O quê?
Lara dá um passo na direção dela, magoada.
— Você veio falar comigo… disse que o pai sentia minha falta… que queria que eu voltasse… — Ela olha para Eduardo. — Você disse que eu não precisava voltar para o atletismo. Era só para me fazer voltar pra casa? Vocês combinaram isso?
O silêncio toma conta da sala.
Eduardo tenta intervir:
— Não, filha, não foi assim.
— Lara, por que você tem que ser assim? — disse Solange, irritada.
Lara vira para ela, já no limite.
— Assim como?
Solange responde sem hesitar:
— Egoísta.
O impacto é imediato.
Lara respira fundo, tentando não explodir.
— Eu aprendi isso com você.
O silêncio dura um segundo.
Solange dá um tapa no rosto de Lara.
O som ecoa na sala.
Bella leva a mão à boca, chocada.
— Mãe!
Lara leva a mão ao rosto, os olhos se enchendo de lágrimas, mais de dor emocional do que física.
Solange continua, fria:
— Seu pai e eu sempre te demos tudo.
Lara encara ela, a voz falhando, mas firme:
— Tudo, não. — Ela engole seco. — Vocês nunca me deram amor.
Eduardo se aproxima, preocupado.
— Filha, não fala assim…
Solange solta uma risada curta.
— Deixa, Eduardo. Ela só quer atenção. — Ela encara Lara, dura: — Se você quiser ir embora, pode ir. Eu não preciso de uma filha ingrata dentro de casa.
Silêncio.
Lara respira fundo.
— Ótimo.
Ela pega a mochila.
— Eu estou indo.
E vai em direção à porta.
Bella reage na hora e corre atrás.
— Lara, espera...
— Bella Carvalho! — a voz de Solange corta o ar.
Bella para na hora.
— Fica. Aqui.
Bella fica paralisada, dividida, olhando a irmã sair.
A porta se fecha.
Silêncio.
Eduardo encara Solange, sério, decepcionado.
— Você passou dos limites.
Ela não responde.
Eduardo pega as chaves.
— Eu vou atrás dela.
Ele sai.
Bella continua parada, com lágrimas nos olhos.
A casa, agora, parece vazia.
 
Lara chega na casa de Roberto e Marta quase correndo, ela chama uma vez… duas… três.
Nada.
Ela olha pelas janelas.
Escuro.
A ficha cai.
Ela fecha os olhos por um segundo, se obrigando a se recompor.
Sem opção, se vira e sai apressada.
Lara corre para a casa de Adryan.
Ela chega no portão e chama, um pouco sem fôlego.
— Adryan!
Uma luz acende.
O portão abre, Débora sai com expressão preocupada.
— Lara? O que aconteceu? Está tudo bem?
Lara tenta sorrir, mas não consegue sustentar.
— Tá… — ela respira fundo — o Adryan está?
Ela balança a cabeça.
— Não. Ele viajou. Foi para São Paulo com a Marta e o Roberto.
Lara fecha os olhos por um segundo, frustrada consigo mesma.
— É… ele também ia.
Ela dá um passo para trás.
— Tudo bem. Eu falo com ele depois.
Ela força um sorriso.
— Boa noite.
Ela vai embora.
Lara caminha sem direção.
As ruas estão quase vazias.
O vento é frio.
Ela abraça o próprio corpo, tentando se aquecer, mas claramente não é só o frio.
Ela anda… e anda…
Sem rumo.
Sem saber para onde ir.
Começa a chover.
Primeiro fraco.
Depois mais forte.
Lara para por um segundo, olhando para o céu, como se não tivesse energia nem para correr.
Ela encontra um pequeno abrigo uma marquise de loja fechada.
Não é confortável.
Não é seguro.
Mas é o que tem.
Lara se encosta na parede e escorrega até sentar no chão.
Abraça os joelhos.
O barulho da chuva preenche o silêncio.
Por alguns segundos, ela só fica ali.
Tentando segurar.
Respirando fundo.
Mas não dá.
As lágrimas começam a cair.
Silenciosas no começo.
Depois mais fortes.
Um choro preso há muito tempo finalmente vem à tona.
Ela cobre o rosto com as mãos, o corpo tremendo de frio, de cansaço, de tudo.
Sem ninguém por perto.
Sem ter para onde ir.
Sozinha.
E, pela primeira vez em muito tempo, sem tentar ser forte.
 
Na manhã seguinte, no banheiro da escola.
Bella está encostada na pia, segurando uma sacola com roupas. Ela olha para a porta de uma cabine, ansiosa, batendo o pé no chão.
A descarga é acionada.
A porta abre.
Lara sai, já com a roupa limpa, o cabelo ainda meio úmido, o rosto cansado mas tentando disfarçar.
Bella olha para ela, avaliando cada detalhe.
— Você realmente preferiu dormir na rua do que voltar para casa?
Lara dá de ombros, evitando o olhar.
— Eu não tinha muita opção.
Bella franze a testa, inconformada.
— Eu não consigo nem imaginar isso.
Lara se encosta na pia ao lado dela.
— Pois é. Nem eu imaginava.
Um silêncio curto.
Bella cruza os braços.
— Você precisa de um lugar para ficar, Lara.
— Eu sei.
— Então?
Lara solta o ar, cansada.
— A Marta, o Roberto e a Esther vão ficar um tempo em São Paulo… e o Adryan só volta domingo.
Bella faz uma careta.
— Ainda é sexta.
Ela pensa por um segundo.
— Eu posso falar com algum professor.
Lara reage na hora:
— Não.
Bella se assusta com a firmeza.
— Por quê?
— Porque vão chamar o conselho tutelar e eu vou ser obrigada a voltar pra casa.
Bella hesita.
Ela sabe que é verdade.
— Mas… você vai ficar onde?
Lara desvia o olhar, pensativa.
— Eu conheço alguém.
Bella arqueia a sobrancelha.
— Quem?
— A Lory.
— Então pronto, fala com ela.
Lara balança a cabeça, insegura.
— Não é tão simples.
— Por quê?
— A gente não é tão próxima assim… eu não tenho coragem de pedir isso.
Bella solta um suspiro, já decidida.
— Então eu falo.
Lara olha rápido pra ela.
— Bella...
— Relaxa. Eu resolvo.
Ela aponta pra porta.
— Agora vai pra aula. Na hora do almoço a gente se encontra e vê isso direito.
Lara hesita por um segundo… depois assente.
— Beleza.
Ela começa a sair.
Bella observa, ainda preocupada.
— Ei.
Lara para na porta e olha para trás.
— Só tem um pequeno problema.
Lara ergue uma sobrancelha.
— Qual?
— Quem é Lory?
Lara encara ela e solta um sorriso de leve, pela primeira vez no dia.
 
O time de vôlei esta no ginásio. Algumas meninas alongam, outras conversam em grupinhos. Sara conversa com algumas meninas.
— Eu queria ter visto o que aconteceu depois que encontraram o celular.
As meninas riem.
De repente, Joana entra na quadra, andando rápido, visivelmente irritada.
O clima muda na hora.
— Sara! O que você fez?
Sara nem tenta negar.
— Ela mereceu.
— Eu não acredito nisso… — Joana passa a mão no cabelo, frustrada — Qual é o seu problema?
Sara fecha a expressão.
— Por que você está reagindo assim?
— Porque você fez uma idiotice!
Sara se levanta, agora irritada também.
— Joana, qual é…
Joana não deixa ela terminar.
— Eu achei que a gente era um time! — A voz dela sobe. — Mas você só pensa em você. Você é muito egoísta!
Sara dá um passo à frente, incrédula.
— Eu sou egoísta?
Ela aponta, acusando.
— Você nem quis ajudar quando a sua amiga...
— Que amiga? — Joana corta na hora, firme.
O silêncio pesa.
— Amiga não faz o que você fez. — Ela encara Sara, magoada de verdade. — Amiga não trai. Amiga não pega o celular da amiga escondido para ferrar outra pessoa.
Aquilo atinge em cheio.
Sara trava por um segundo.
Antes que ela responda
Rogerio se aproxima, sério.
— Chega.
As duas se afastam um pouco, mas ainda se encaram.
— Sara, o diretor Daniel quer falar com você. Agora.
Um silêncio tenso.
Sara olha direto para Joana, desconfiada.
— O que você fez?
Joana sustenta o olhar.
— A Lila me contou tudo.
Sara pisca, surpresa.
— Você mesma disse que amigas não traem.
Joana respira fundo. Quando responde, a voz é mais baixa e mais dura.
— Sara… nós não somos mais amigas.
Aquilo quebra alguma coisa.
Os olhos de Sara se enchem de lágrimas, mas ela segura o máximo que consegue.
Ela olha em volta ninguém fala nada.
Então vira as costas e sai da quadra, andando rápido.
 
Na hora do almoço, Lara está na parte de fora da escola, sentada sozinha em um banco.
Ela nem percebe quando Lory se aproxima.
— Lara?
Ela levanta o olhar.
Lara endireita a postura na hora, meio tensa.
— Oi…
Lory dá um sorriso leve, tentando deixar o clima mais tranquilo.
— A Bella falou comigo.
Lara assente, meio sem graça.
— Fui eu que pedi pra ela…
— Eu imaginei.
Lory se senta ao lado dela, 
— Então… eu conversei com a minha mãe.
Lara presta atenção na hora, um pouco apreensiva.
— E?
Lory olha pra ela, direta, mas gentil:
— Ela disse que você pode ficar lá em casa.
Lara fica em silêncio por um segundo, absorvendo.
Um pequeno alívio aparece no rosto dela.
Lory continua:
— Mas… ela quer falar com seus pais antes.
O rosto de Lara muda um pouco o alívio ainda está lá, mas misturado com tensão.
— Tudo bem…
Ela desvia o olhar, pensando.
— A Bella te deu o número do meu pai, né?
— Deu, sim. Já passei pra minha mãe. Ela deve ligar pra ele ainda hoje.
Lara respira fundo, como se estivesse se preparando para isso.
— Ok…
Um silêncio curto.
Lara olha de volta para Lory, sincera:
— Obrigada, de verdade.
— Imagina.
— Eu estou fazendo uns freelas no fim de semana… posso ajudar com alguma coisa lá, sei lá, compra, contas…
Lory solta um riso leve, balançando a cabeça.
— Ei. — Ela espera Lara olhar pra ela. — Você não precisa resolver tudo sozinha o tempo todo.
Lara fica quieta.
A frase claramente atinge.
Lory continua, mais suave:
— Fica tranquila, tá? Primeiro você respira. O resto a gente vê depois.
Lara solta um pequeno sorriso, meio cansado, mas verdadeiro.
— Tá bom.
Um pouco de silêncio confortável se instala.
Pela primeira vez no dia…
Lara parece um pouco menos perdida.
 
Sara sai da sala do diretor Daniel com o rosto tenso, tentando manter a postura. Dá alguns passos pelo corredor, ainda processando tudo.
Então vê Mikaelly encostada na parede, braços cruzados.
As duas se encaram.
Sara muda na hora — o olhar endurece.
Ela vai até Mikaelly.
— Engraçado, vocês adoram zoar os outros, mas não sabem lidar quando é com vocês.
Mikaelly descruza os braços devagar, sem tirar os olhos dela.
— Vocês quase acabaram com a minha vida.
Sara dá de ombros, como se não fosse grande coisa.
— Não exagera.
Mikaelly dá um passo à frente, agora mais próxima.
A voz dela sai firme, mas carregada.
— Não exagera? — Ela respira fundo, tentando se controlar. — Você faz ideia do que uma acusação dessas significa para mim?
Sara sustenta o olhar, ainda defensiva.
Mikaelly continua, mais intensa:
— Eu sou uma garota negra, de um bairro humilde. Eu não tenho as mesmas chances que você. Para você, talvez isso seja só “uma brincadeira”. — ela balança a cabeça — Para mim, isso podia acabar com tudo.
Sara aperta a mandíbula, incomodada, mas não recua.
Ela se aproxima também.
— Isso não é problema meu. — A resposta sai fria. — Cada um cuida da própria vida.
Mikaelly encara Sara por um segundo longo.
Dá um pequeno aceno com a cabeça, decepcionada. Ela vira as costas e começa a ir embora.
Sara observa, o corredor está vazio.
— Para de drama.
Mikaelly para no meio do passo.
O corpo inteiro dela trava.
Ela se vira devagar.
— O que você disse?
Sara sustenta o olhar, sem recuar.
— Você ouviu.
Um segundo de silêncio.
Sara dá um sorriso, provocando:
— Agora vai lá se arrumar. Porque na quadra… a gente vai acabar com vocês.
Mikaelly se aproxima de novo, mas agora a expressão é outra.
Não é só raiva.
É decisão.
— Não vai ter jogo.
Sara franze a testa.
— Como assim?
Mikaelly encara ela, firme.
— A Emílio Ribas não joga contra racistas.
O peso da palavra cai no ar.
Dessa vez, Sara não responde.
E, pela primeira vez, parece abalada.

Sinopse do Próximo Capítulo 
Lila resolve dar um próximo passo com Joey. Adryan está se sentindo solitário desde o término com Carol, que parece estar bem. Elllie faz novas amizades em São Paulo.
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Atualizado em: Qui 27 Ago 2026

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