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Segredo Das Águas

Luíza vinha no barco sozinha. Gritava por socorro. Cruzou com um barco de pescadores e, em estado de choque, contou que seu marido desequilibrou, caiu no rio e desapareceu. Estava sem colete. Tentou voltar duas vezes e depois não o viu mais.
Os pescadores foram com ela até o local, mas não havia sinal de Leopoldo. Sofia chorava e pedia para que encontrassem seu marido. Os pescadores não podiam fazer nada. Chamaram as autoridades. Aquele era um local de águas profundas e correnteza forte.
Luíza foi pra casa amparada. A polícia fazia perguntas e ela mal conseguia responder. Fez uma ligação e falava baixinho. Depois de um tempo chegou um carro. Ela abraçou o rapaz e entraram. Quando suspenderam as buscas para recomeçar no outro dia, ela foi pra cidade. Acompanhava tudo de lá. As buscas se encerraram após o prazo regulamentar e nada de resgatarem o corpo. Ela soube por seu advogado que teria que esperar anos para Leopoldo ser dado como morto se o corpo não fosse localizado. 
Luíza procurou Henrique, sócio de Leopoldo, querendo dinheiro. Explicou que tinha que sobreviver. Queria participar das resoluções da empresa. Sabia que seu marido era o único administrador e queria tomar seu lugar. Descobriu então que uma alteração recente tornou Henrique administrador e que ela não tinha nenhum direito enquanto não houvesse o inventário. Ela recorreu à justiça pra obter uma pensão alegando que estava passando necessidade. Sempre queria mais dinheiro, estava ansiosa para gastar sem limites. Viveu muito tempo com aquele homem e tinha direito a usufruir de sua fortuna.
A vida seguiu seu curso como o rio, que escondia o corpo de Leopoldo e impedia Luíza de tomar posse de tudo que lhe pertencia. Continuava a morar na casa dele e tinha um namorado. Um dia ela e o namorado estavam conversando quando do nada ouviram a voz de Leopoldo: “O rio guarda os corpos, mas não consegue afogar a verdade. A verdade sempre emerge”. Eles pularam. Olharam por todos os lados, procuraram e não havia ninguém. Ela vociferou: “Volte para o inferno e nos deixe em paz.”
Depois daquele dia, várias vezes ela escutava a voz de Leopoldo fazendo acusações e reclamando sua vida que ela tirou. Estava a ponto de ter uma crise nervosa. O namorado  cheio de medo pensava que estava enlouquecendo.  A vida deles se tornou um inferno. Quanto mais amaldiçoavam Leopoldo, mais ele se manifestava. 
Moradores da cidade diziam ver Leopoldo e apavorados fugiam. Pensavam que por seu corpo não ter aparecido ele ficava vagando e assustando as pessoas. Uma vez a secretária da empresa vinha pelo corredor e viu Leopoldo lá no fundo. Deu um grito e desmaiou. Todos vieram acudir, mas não viram nada. Outras pessoas disseram, com certeza, tê-lo visto vagando pela empresa. Uma vez, Sofia estava pressionando Henrique a lhe dar dinheiro. Quando olhou no fundo da sala, deu um grito.
—Eu vi Leopoldo lá no fundo. Ele estava me olhando.
—O que é isso Sofia?  Não me diga que você acredita em assombração. 
—Deve ter se escondido atrás da cortina. Vou lá olhar.
—Imagina se assombração se esconde atrás da cortina? Vamos terminar nosso assunto que tenho mais o que fazer.
Surgiu na cidade a lenda que Leopoldo era uma alma que assombrava as pessoas e que enquanto seu corpo não fosse encontrado, não poderia descansar em paz. Fizeram até mutirão pra tentar encontrar seu corpo. Encomendavam missas, se reuniam para fazer orações por sua alma. Luíza estava adoecendo com aquelas visões. 
Quase dois anos depois do acidente, numa manhã, Henrique entrou na delegacia acompanhado de um  advogado e de um outro homem. Pediu pra falar com o delegado. Quando entraram na sala, o homem tirou os óculos e o boné. O delegado deu um pulo da cadeira e branco como uma folha de papel disse:
—Você é real ou uma assombração?
—O que o senhor acha?  Acredita em assombração? Quer me tocar ou está com medo?
—Que brincadeira é essa? Explique-se. Quer me matar de susto? Mortos não ressuscitam. Até hoje eu sou sabia da ressurreição de de Jesus e assim mesmo, três dias após a morte. Ressuscitar depois dois anos é piada. 
—Podemos dispensar as ironias? A vítima aqui sou eu e tenho como provar.
—Quer dizer que está vivo? Não é uma assombração? Sente-se e conte tudo — Leopoldo começou a contar sua história:
“Naquele dia eu ia desmascarar aquela que chamava de esposa. Eu estava muito abalado,  mas queria que tudo fosse perfeito e no momento certo. Estávamos na nossa casa de campo. Eu fingia que estava tudo bem. Ela me chamou pra darmos um passeio de barco e eu vi maldade. Ela estava especialmente tranquila e tentando ser carinhosa e amorosa. 
De repente, senti uma pancada em minha cabeça. Desequilibrei e caí no rio. Tentei voltar, mas como ela me pegou de surpresa e minha cabeça doía afundei novamente. Tentei nadar para a margem e sair. Por alguns instantes pensei que seria o fim. Ela acelerou o barco e gritava pedindo socorro, mas na verdade me deixou ali pra morrer. Por ser precipitada, não viu que eu consegui sair na margem. Sentei para me recuperar. Não sei se por falta de força ou por medo de cair também, a pancada não foi tão forte. Fiquei ali pensando no que ela fez. Decidi que ia deixá-la pensar que eu estava morto pra ver até onde ia sua frieza. Ela precisava que eu estivesse morto ou sairia sem nada. 
Fiquei por ali me recuperando e vendo o fingimento dela. Simulava estado de choque e desespero pelo sumiço e provável morte do amado marido, aquele que ela estava traindo com um garotão. Nunca imaginei que pudesse ser tão fria e traiçoeira, que pudesse ser uma assassina. Estava casado com ela há oito anos. No princípio éramos apaixonados e vivemos bons e ardentes momentos. Aos poucos ela foi mostrando a cara. Eu a amava muito e a queria comigo. Até que soube que estava me traindo na maior cara de pau. Eu dava tudo que ela queria. Fazia todas as suas vontades e ela não deu valor
Mandei investigar, colher provas robustas e irrefutáveis para que ela não pudesse contestar nada. E naquele dia eu ia desmascará-la. Estava esperando meu advogado e Henrique chegarem para colocar as cartas na mesa e expulsá-la de minha vida com uma mão na frente e outra atrás. Mas parece que ela pressentiu ou soube o que ia acontecer e decidiu me matar antes. Nós nos casamos com separação de bens, com uma cláusula que garantia a ela direito a receber um milhão de reais por ano de casamento. Mas tinha também a cláusula que ela não atentou ao assinar: se ela me traísse ou desse causa à separação, perderia o direito a receber o que quer que fosse. 
Naquele dia eu me mantive escondido até que tudo se acalmou na casa. O garotão veio buscá-la. Eles estiveram por algum tempo lá e pensei que estavam comemorando a minha morte. O que depois constatei nas câmeras que mantinha ali. Brindaram, beberam, se amaram e comemoraram a minha morte que a deixaria livre e milionária. Ela dizia que não tinham a mínima chance de eu ter sobrevivido. Riam e debochavam de mim.
Depois que eles se foram. entrei na casa, olhei as câmeras, salvei o que precisava. Abri então o cofre secreto onde sempre deixava uma boa reserva em dinheiro. As provas contra ela também estavam ali. Peguei tudo e saí. Consegui chegar a uma cidade próxima. De lá resolvi  o que precisava e parti para o exterior. Apenas o meu amigo, aqui presente, sabia de tudo e me ajudou. Deixei as diretrizes de como agir e administrar tudo.
Ela estava ansiosa para que meu corpo fosse encontrado e pudesse ser finalmente uma viúva milionária. Os dias passaram e nada de encontrarem o morto. E veio a primeira decepção, sem corpo não havia morte e então seria necessário o tempo legal para que eu fosse declarado morto. Dias depois encerraram as buscas alegando que seria impossível encontrar o corpo. Ele poderia estar preso em alguns troncos ou ter ido rio abaixo sendo impossível determinar o local. 
Ela então começou a pressionar Henrique a quem, antes de viajar, fiz administrador da empresa, assinando um documento com data anterior ao meu desaparecimento. Queria dinheiro por conta da herança que receberia. Como ele não cedeu, ela recorreu à justiça, alegando que estava passando necessidade. Um tempo depois conseguiu uma pensão e ainda achou pouco. Passei esse tempo coletando provas, dados, para mostrar quem é esta mulher. Tenho todas as provas que preciso. Ela não vai ter como alegar inocência.“
O delegado examinava documentos e fotos. Olhava com calma, ouviu alguns áudios, assistiu vídeos.
—Com todas essas provas ela realmente não tem como escapar. Você sabe que cometeu um crime, não é? Você simulou sua morte.
—Eu simulei minha morte? De maneira nenhuma. Eu apenas viajei. Minha morte nunca foi constatada. Nunca usei meu desaparecimento para me beneficiar ou prejudicar ninguém.
—Muito bem, vamos abrir um inquérito vou intimá-la para prestar esclarecimentos. 
—Gostaria de estar presente. Quero ver a cara dela quando me ver.
Dias depois Luíza entrou na delegacia com seu companheiro e seu advogado. Estava nervosa e com arrogância perguntou o porquê de ser intimada. Exigia uma explicação. Pouco depois ela foi chamada e entrou na sala cheia de razão. Quando viu Leopoldo, desmaiou. Seu namorado se esgueirou e fugiu.
Luíza negou tudo. Contou sua versão. Chorava quando lhe convinha, indignava-se quando precisava e repetia que o marido caiu no rio por acidente. O delegado começou a expor as provas e pedia que ela se explicasse. A cada nova prova ela se enrolava e o advogado pálido, mandou que ela ficasse em silêncio. 
As provas eram fartas: extratos bancários e de cartões de crédito, fotografias, mensagens. Vídeos de câmeras nas casas de campo e da cidade mostravam Luíza e o namorado comemorando poucas horas depois do suposto acidente. Brindavam, riam, comemoravam o sucesso do plano de matar Leopoldo, faziam planos para a herança que ela receberia. Outros vídeos mostravam os dois na casa de Leopoldo, como se fossem donos, comemorando o crime perfeito. O semblante do advogado era de surpresa e desânimo. Luíza estava derrotada, embora tentasse se fazer de vítima. 
Luíza respondeu o processo em liberdade. Foi julgada e recebeu a pena mínima. Por ser primária teve o benefício do regime semiaberto. Pouco tempo depois estava em liberdade condicional. Seu namorado não foi condenado. Leopoldo ficou indignado por eles saírem bem de tudo que fizeram. Mas sentiu-se vingado por ela sair do casamento sem nada e ter que trabalhar e sobreviver com pouco. O namorado que só queria dinheiro saiu da vida dela. Luíza recebeu uma pena branda, mas seu maior castigo foi perder sua vida de rainha, que julgava tão importante. Estava derrotada e rotulada de assassina. 
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Atualizado em: Seg 17 Ago 2026

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