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De Volta Às Raízes

A relva, que ainda guardava o orvalho da madrugada, exalava um perfume doce e fresco. A serenidade do amanhecer ensolarado encantava os olhos. A brisa fria tocava seu rosto numa carícia acolhedora. A vida despertava. O canto dos pássaros, o sussurro das folhas, um galo cantando invadiam seus ouvidos. Seu olhar percorreu a paisagem.
A casa era a mesma. O velho carro de boi estava abandonado logo adiante. Sentiu saudade do tempo que andava de carro de boi com os irmãos. Tempo bom. O cheiro da relva e os sons o transportaram para um tempo longínquo. Naquele tempo a felicidade parecia tão simples como o caminho de terra que serpenteava pelos campos.
Viu-se criança junto com os irmãos. Mergulhavam no rio de águas claras, colhiam frutas no pé, tomavam leite ao pé da vaca. Em cada canto daquele chão um mistério, uma aventura, uma descoberta. Corriam pelos campos, inventavam brincadeiras, faziam travessuras, riam sem medida.  Quando foi que aquela alegria genuína e a felicidade o abandonaram e deram lugar à insatisfação que nunca mais o deixou?
Talvez tenha sido quando o tio da cidade passou a visitá-los vez ou outra. Chegava em seu lindo carro acompanhado da esposa elegante e dos filhos impecavelmente vestidos. Os primos observavam a vida simples do campo e olhavam pra ele e seus irmãos com desprezo e arrogância. Falavam da cidade como o melhor lugar e ridicularizavam a “roça”, como se fosse o fim do mundo. 
Ou talvez foi quando ele descobriu o mundo dos livros e sonhava em conhecer todos aqueles lugares onde se passavam os romances. Nas histórias encontrou mundos vastos, cidades fascinantes, horizontes infinitos. Sonhou conhecer cada um daqueles lugares. Passou a desejar uma vida diferente daquela que levava
Tornou-se ensimesmado, sonhando com o dia em que sairia dali e ganharia o mundo. Aos dezesseis anos foi para a cidade grande. Seu tio lhe deu trabalho e um lugar nos fundos de sua casa pra morar. Os primos o olhavam com vergonha e desprezo. Mas ele não ligou. Focou em seu objetivo que era estudar e se tornar um homem rico e respeitado como o tio. Passou por maus pedaços, mas alcançou sua meta. 
Ia regularmente visitar sua família. Depois que os pais morreram, passou a ir menos. Seus irmãos permaneciam lá sem nenhuma ambição. Ultimamente foi apenas ao funeral dos irmãos. E agora que o último irmão faleceu ele ficou, depois do sepultamento, para resolver os assuntos legais e colocar à venda a propriedade que já era sua há tempos.
Sentou-se na varanda, o pensamento criou asas. Da criança feliz que fora um dia, transformou-se em um homem sombrio, enigmático, triste, amargo. Passou pela vida sem viver. Aos cinquenta e cinco anos era solteiro, solitário, vivia de casa pro trabalho e do trabalho pra casa. Mesmo nas viagens, que amava de fazer, sentia uma certa insatisfação como se algo lhe faltasse e nada pudesse preencher o vazio. Havia sempre uma ausência, uma sensação de incompletude.
Saiu andando pelo sítio. O rio, o velho curral, o morro que subia com os irmãos de onde se via toda a propriedade, o lago cheio de peixes, o pomar, a horta. Uma emoção estranha tomou conta dele e começou a chorar. Era como se todas as lágrimas represadas pedissem passagem para desaguar ali no chão onde nasceu. Ajoelhou-se e acariciou a terra. Ali ele foi feliz, conheceu a liberdade de ser, de viver, de amar. Nunca mais, depois que saiu do seu lugar, sorriu como sorria ali. 
Lamentava ter deixado sua família de lado por um sonho, uma ambição. Passara a vida perseguindo uma felicidade que acreditava estar na riqueza, no reconhecimento, no poder, nos lugares que queria conhecer. Enquanto corria atrás de um futuro feliz, abandonou o que tinha de mais precioso: as raízes, a família, a si mesmo. Agora estava sozinho. Não restou ninguém. E ele não era feliz. 
Permaneceu longos minutos em silêncio, sentindo o vento acariciar seus cabelos grisalhos. Quando voltou à casa já não era o mesmo homem. Decidiu que não venderia o chão em que nasceu e onde sua família viveu. Não podia vender seu passado. Ele não tinha preço, tinha valor. Era a sua vida. 
Viria ali mais vezes. Talvez pudesse reencontrar partes de si perdidas ao longo da caminhada. Talvez ainda houvesse tempo para resgatar a alegria que deixou pra trás, acreditando que a felicidade morava em outro lugar, em outros valores.
Enquanto observava o sol descer lentamente atrás do morro, compreendeu algo que levou uma vida inteira para aprender: a felicidade nunca esteve na cidade, no dinheiro, no prestígio ou nas conquistas. Ela sempre habitou dentro dele, silenciosa e paciente, esperando apenas que ele encontrasse o caminho de volta para si. 
A noite caiu e do céu cheio de estrelas, teve a nítida sensação que os pais e os irmãos sorriam em algum lugar, em alguma estrela. Era  presença e aprovação. Ele sorriu como há muito tempo não sorria e compreendeu que a felicidade é um estado luminoso da alma quando se reconhece a própria essência. É o ponto onde a memória, o amor, a natureza e o espírito voltam a ser um só. Não era tarde pra mudar, pra reencontrar a felicidade e a alegria de viver. De algum lugar seus pais e irmãos brindariam com ele.
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Atualizado em: Dom 9 Ago 2026

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