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Estava uma noite agradável, naquela distante época, onde ainda não se falava nem em happy hour. Passei num restaurante onde sempre encontrava alguns conhecidos. Naquela noite, uma pessoa que outrora eu já havia considerado como amigo e que estava se perdendo na bebida e em jogo, mas ainda, devido a ter ainda poder financeiro, mantinha ainda em volta de si uma matilha que ele considerava como amigos.
Tempos antes eu tocava, no período da noite, um bar lanchenete, que era de propriedade de meu irmão. Era de bom movimento onde eu ganhava os clientes de noite e o meu irmão os perdia durante o dia. Era mais um dos meus pequenos bicos onde eu ganhava o meu sustento sem precisar me empregar. Eu não tinha uma remuneração definida, mas conforme o combinado retirava no final da semana a parte que me cabia, conforme o faturamento semanal.
Este amigo, foi lá que eu conheci. Ele vinha com companheiros de trabalho de uma cia. de seguros, onde tinha parceria, já que era um corretor. De tanto freqüentar o local começou a me convidar para ir com ele trabalhar. Viu em mim uma capacidade de negociador que ainda não me era consciente. De tanto insistir nos convites, resolvi um dia lá ir, meio reservado, pois já estava acostumado a trabalhar sozinho. Fui lá numa tarde, um pouco encabrunhado de ver tanta gente junta, mas começamos a trabalhar, lá num canto de um andar aberto onde ficava a sua mesa. O trabalho foi rolando e eu fui indo bem, fechando negócios onde eu tinha uma participação. Nesta altura o meu irmão fechou o estabelecimento e este passou a ser o meu melhor rendimento. Passaram-se uns seis meses e aí começaram os problemas. Só me dava os piores negócios e começou também a atrasar os pagamentos. Ele era um bom pagador de despesas, então tinha sempre alguns indivíduos perto dele e, lógico, não eram do melhor caráter. Talvez tenha vindo daí alguma influência, com relação a mim. E chegou um momento em que não deu mais para trabalharmos juntos, mas como eu já havia aprendido os segredos da profissão, iniciei a minha carreira ‘solo’, na mesma empresa, como profissional liberal e fui crescendo, enquanto ele continuava a sua decaida.
Naquela noite, naquele restaurante, ele me convidou para sentar na sua mesa, alegando que, embora não trabalhássemos mais juntos, não tinha ‘do porquê’ de não continuarmos amigos. Eu assenti.
A noite foi rolando e, lá pelas tantas ele propôs: Porque todos nós que estávamos na mesa não íamos a um outro local, dele conhecido, para brincarmos de um jogo de cartas chamado truco e passarmos mais algumas hora, naquela noite tão agradável? Todos toparam e para mim seria ainda uma carona já que minha morada ficava no caminho por onde ele passaria para ir embora.
Era um estabelecimento de bairro, naquele instante com pouco movimento, e durante a brincadeira do jogo a conversa começou a tomar outro rumo e eu comecei a sentir que tinha entrado numa fria. Os outros foram indo embora, como que combinado, e eu fui ficando sozinho com aquele cara, que eu ainda considerava como uma pessoa normal. Não adiantava argumentar, ele já tinha vindo com idéia fixa, e depois de muito falar disse que dali eu não sairia com vida. Eu estava sentado num banco, encostado no balcão e ali fiquei estarrecido do que estava acontecendo, pois apesar de tudo, o tinha em boa consideração e era agradecido. Ele solicitou ao dono do estabelecimento a sua valise, onde eu sabia até a arma que ali tinha. Olhei para o dono do estabelecimento e constatei pela sua frieza que ele também não estava do meu lado. A valise foi colocada no balcão e eu ali, letárgico, imóvel. O meu ‘ex-amigo’ pegou a valise e começou a programar o segredo, naquelas pequenas roldanas, e eu ali naquele banco sentado e, não por coragem, não sei, só sei que fiquei ali aguardando.
E ai ele começou a girar aquelas roldanas, girava, girava, girava e girava e pela demora eu vi, contra todas as evidências, que ali não seria o meu fim. Como eu não corri faltou coragem a ele. Ele empurrou a valise para frente, arcou levemente a cabeça sobre o queixo e colocou as duas mão largadas no balcão e não falou mais nada. Eu olhei para o dono do bar, me levantei normalmente e sai para a rua, iniciando uma caminhada de hora e meia, em direção da minha casa.
Não me lembro de ter me sentido tão leve e livre na minha vida e, principalmente, tão acompanhado invisivelmente, como naquela minha caminhada. Sinto hoje que ali, naquele momento, a minha vida tinha passado por uma transição.
Continuei me desenvolvendo na profissão e me tornei acredito, um bom profissional. Até que chegou um dia, após um ou dois anos, ao passar pelo andar do meu escritório, que continuava no mesmo prédio, aquele meu ‘ex amigo’, que nunca mais tinha tido nenhum contato, entrou e veio em direção da minha mesa, que ficava no fim da sala, perto da janela, e para minha surpresa, numa situação insólita, perguntou se eu podia lhe emprestar algum e eu respondi secamente que não emprestava dinheiro.
Em qualquer situação da sua vida procure se lembrar: 'Não é o lugar em que nos encontramos nem as exterioridades que tornam as pessoas felizes; a felicidade provém do íntimo, daquilo que o ser humano sente dentro de sí mesmo' Roselis von Sass -
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