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Insistentemente Feliz Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Drama
Escrito por: carmenluxa
carmenluxa

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Ter, 02 de Março de 2010 16:27

Eu estava infeliz, sentada naquele banco no Parque da Rendeção no fim da tarde de domingo. Era outubro, a meia estação se instalava depois das chuvas de setembro. O sol finalmente aquecia Porto Alegre. Estava só, abandonada pelo meu homem, simplesmente porque ele havia encontrado um emprego melhor em outra cidade e não me convidou para ir junto. Fazia uma semana e eu chorava sem parar.

Quando me dei conta uma mulher estava sentada ao meu lado, quietinha, olhando para tudo, eventualmente olhava par mim.  O vestido simples, antigo e escuro, cabelos também escuros, um pouco além dos ombros, soltos e fartos. Os olhos impressionaram-me pela tristeza e profundidade, demoravam além da conta em tudo o que olhavam.

Perguntou-me francamente se eu estava triste, e eu para contar para mais alguém todo  meu infortúnio e injustiça, contei tudo entre lágrimas e soluços. Despejei-lhe minha história acrescentando o final  “que foi que fiz para merecer tamanha dor?” e “onde foi que errei?” e outras frases feitas que agora não lembro, mas finalizei com “onde está Deus que não me responde?”. Ela prontamente me respondeu que Deus não responde.

Sua resposta me deixou frustrada e enraivecida, afinal, ela não se compadeceria de mim. Quase como um ataque, perguntei-lhe se era feliz. Respondeu-me: “Agora sou...”

Envolvida que estava com meu próprio umbigo, não queria saber nada dela, sofrimento bastava o meu, por isso fiquei quieta.

Ela aquietou-se no banco, observando tudo, sua paz que me deu inveja. Quem era essa estranha que sentou ao meu lado e era tão pacífica e tranqüila? Não me contive e perguntei-lhe o que fazia para ser feliz.

Respondeu-me que o tempo ajudou,  e houve um pedido para que ela fosse feliz, e atendendo ao pedido acabou sendo. Vendo meu interesse nessa técnica insólita, foi contando sobre sua vida.
Contou-me que era casada, o marido era motorista de ônibus da Carris. Eles não tinham nada, e aos poucos foram conseguindo comprar a casa que ficava ali por perto, os móveis, e até viajar para as praias de Santa Catarina no verão. “A gente era feliz, resolvemos ter filhos”. Eles tiveram dois filhos, um casal: a menina nasceu primeiro depois veio o guri. Criaram-se  brincando aqui nessa pracinha da esquerda e eram felizes.

Um dia o marido falou que queria ir embora, fazer uma vida diferente, não queria mais viver com ela e os filhos. Arrumou outro lugar para ficar e não voltou mais nem para ver as crianças. A filha, já crescida teve que procurar emprego para ajudar na casa. Ela, que nunca havia trabalhado fora, empregou-se numa loja do Záffari. O guri cresceu mais um pouco e também arrumou um emprego num escritório de advogados. Estavam novamente felizes, os três, cheios de planos para o futuro. Sempre que podia ela cozinhava para eles, cuidava-lhes as roupas, e eles também faziam isso, e se divertiam juntos, na medida do possível. Mas eram felizes.

Um dia, o irmão e a cunhada foram buscá-la no emprego. O filho havia se acidentado e estava machucado, o irmão iria levá-la na Santa Casa onde ele estava. No caminho contou que ele tinha sido atropelado por um ônibus. Ela queria ligar para a filha, o irmão disse que ela já estava lá no hospital. Ela achou tudo estranho, mas saiu correndo com eles ao encontro do filho. Quando chegou lá viu sua filha em prantos, não conseguia entender o que estava acontecendo. Aos poucos foram lhe contando que seu filho estava morto. Ela enlouqueceu, a última coisa que viu foi seu filho, que nem numa cama estava, haviam colocado ele numa caixa de plástico, um “bacião”, ele estava quieto e todo machucado, mas seu rosto era lindo, sua criança linda estava ali, quieto e gelado. Falou essas duas últimas palavras sussurrando, e como se fossem muito importantes no contexto.

Contaram que um motorista de ônibus, embriagado, havia  atropelado seu filho na parada do ônibus onde ele estava esperando para ir para casa. O ônibus havia subido no canteiro e bateu na  sua criança. “O meu filho era tão lindo!” me dizia, tinha 22 anos e era tão bom, repetia entre seus soluços sufocados.

E ela enlouqueceu mesmo, não conseguia entender, me disse que então perguntava para Deus o porquê disso, mas Deus não respondia.

Ficou nesse estado de loucura durante cinco anos, sua filha cuidava dela, fazia de tudo para que melhorasse. Ela só chorava e dormia, não conseguia fazer mais nada, abandonou seu emprego, fechou as janelas e se entregou àquela tristeza toda.

Um dia ela teve um sonho. Sonhou que estava lá na Santa Casa, num daqueles corredores longos com teto alto, quando ao longe viu seu filho vindo em sua direção. Ele estava com uma roupa de formatura, toda branca e corria em sua direção chamando-a. Feliz lhe contou que estava indo para um lugar especial, e estava muito contente, e lhe disse “mamãe, eu vou para onde eu sempre quis ir”. Disse-lhe que não chorasse mais e lhe pediu para ser feliz.         Ao acordar, contou para a filha, que ficou muito contente ao ver a sensibilidade da mãe ao sonho. E foram juntas abrir as janelas. Contou-me que agora ela que ajudar a filha. Arrumou novo emprego e também cuida da casa e da filha, que quer fazer faculdade, estudar para ser psicóloga. A filha tem um namorado e pensam em casar no fim do ano que vem, e elas estão felizes.

Enfim, me disse que Deus nunca lhe respondeu, mas lhe mandou respostas pelos anjos: seus filhos, sua família, amigos, todos são anjos instrumentos de Suas respostas. Disse ela que agora eu, um anjo triste que não consegue ver a felicidade espalhada pelos quatro cantos. Disse também que amanhã vai se diferente, o tempo muda tudo basta um segundo e tudo se transforma.

Uma criança passou por nós, de bicicleta e caiu. Ela distraiu-se a socorrendo.

Levantei-me também, afastei-me em direção à minha casa com o coração levando uma tênue promessa. Iria abrir minhas janelas, esperar pelos meus anjos e suas repostas.



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Insistentemente Feliz
Ter, 02 de Março de 2010

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Última atualização em Qui, 04 de Março de 2010 18:06
 
Comentários (6)
  • Pamaro
    avatar
    Bonito conto, Carmenluxa. Bem narrado, história interessante, bela mensagem de fé, confiança em si próprio e esperança. Parabéns e todas as estrelas. Beijo no coração.
  • carmenluxa
    avatar
    Obrigada Pamaro, e é um prazer a tua conexão. carmenluxa :D
  • Cerson
    avatar
    Muito bom o texto; fé inabalável... abraços
  • Abreu
    avatar
    A fé a esperançar o viver...
  • rackel
    avatar
    Excelente, Carmenluxa. Lamber as feridas faz parte do luto quando das nossas perdas. Mas continuar nelas não nos acrescenta nada, pelo contrário, impede nossa evolução. Parabéns.
  • anzolvirado  - Conheço bem isto tudo
    A infelicidade é uma transa solitária. Nenhuma palavra muda nada o buraco onde a pessoa se mete quando esta numa pior. As perdas parecem que aumentam e a vida perde o sentido, se é que viver tem algum sentido. Mas a pessoa que sofre descobre que acorda no outro dia e que tudo vai ficando nos ontens da vida. Não é fácil, mas a vida continua e se a gente lembrar com amor aqueles que partiram e a gente partir deixando amores pra trás é o que importa realmente. :D
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